Este conjunto de obras esteve patente ao público na Casa Museu Frederico de Freitas, ao abrigo de protocolos, assinados em 2002 e 2013 entre Teresa da Cunha Telles Hall, filha de Martha Telles, proprietária do espólio, e os Secretários Regionais do Turismo e Cultura vigentes. Martha da Cunha Telles nasceu no Funchal, no seio de uma família tradicional, filha de Alexandre da Cunha Telles, advogado, e de Anne Kristine Stephanie Wera Beranger Cohen, dinamarquesa, cantora lírica e professora de canto, que estudou em Paris. A família tinha residência no Funchal, na Rua da Carreira n.º 188, palacete urbano destruído para dar lugar à atual Residencial Colombo. A pintura desta madeirense é, na sua grande maioria, um profundo registo da sua própria vivência insular, um regresso à infância e adolescência (veja-se, por xemplo a série de trabalhos que intitulou “Mémoires d’ enfance”), marcadas pela presença tutelar de um avô general, a mãe cantora, os irmãos, as viagens, a morte e os seus lutos, os jardins de buxo da sua quinta no Monte, circunstâncias que impressionaram Agustina Bessa Luís que, na obra Martha Telles - O castelo onde irás e não voltarás (1986), observou “(…) Para Martha, a casa do Monte era como esse castelo que no verão se enchia de risos e de projetos alimentados pela tradição familiar. As três irmãs, Otília, Louise, Eugénia, tendo no encalço o pequeno António em que transbordam os afectos, parecem pertencer a um elenco do Bergman. Não sei como o irmão da Martha, que se fez cineasta, nunca se lembrou disso. A própria pintura da Martha é bergamaniana. Embora a descrevam como figurativa abstrata (assim disse Vieira da Silva, que a orientou nos tempos de Paris), apesar de ela própria se intitular uma realista mágica, eu vejo a performance dum Bergman nos seus quadros. Primeiro o acontecimento onírico que tudo arrasta, tanto das casas como das tumbas, com um formidável apelo de ressurreição; depois a tentativa de seduzir o tempo, captando-o como um vasto e inofensivo corpo celeste em que giram as paixões e os destinos, sem contudo conter a morte como elemento dispersador. A morte aglutina, não dispersa.” Para Martha Telles, a sua pintura “ é uma linguagem do silêncio”, perceção reafirmada por Maria Antónia Fiadeiro, no texto que lhe dedicou em 1984, nas páginas do Jornal das Letras, a propósito da sua exposição na Fundação Calouste Gulbenkian: “O silêncio é preciso para olhar a sua pintura e mais do que nunca se entende que nenhuma imagem dispense a leitura. Toca-se no inconsciente. Há uma grande inquietação e uma grande quietude neste deslumbramento que, muitas vezes, assenta num banal registo do quotidiano, numa trivial cena familiar.” A aproximação desta pintura à de outros artistas (Henri Rousseau, Edward Hopper, o geometrismo de Vieira da Silva, sua professora, ou mesmo as flores que Max Römer e a gibraltina Leni Misfud lhe ensinaram), com quem conviveu ou viu nos muitos Museus que frequentou, nas múltiplas viagens que fez, não invalida o cunho evocador da sua pintura, onde cada tela ou desenho parece querer contar uma história, que se enreda, num labirinto de dúvidas e incertezas balizado, quase sempre, num binómio também de ausências e presenças. Nestes “grandes quadros genealógicos”, como os intitulou Agustina Bessa Luís, de quem vale a pena reler, ainda, mais um parágrafo: “Martha sente, através desses lugares imensos que fundamentam o rompimento entre o homem e a natureza, sente um desejo de reaver a ilha, de ter ao alcance o detalhe da ilha inteira. As flores pálidas das hidranjas, as lagartixas pré-históricas, as japoneiras em flor, o mar abraçado ao nevoeiro; os bandos de turistas com ar convalescente e estival, um velho hotel rococó onde parece ir rodar-se um filme com Charles Boyer e Maria Openskaya. Então Martha começa a pintar (…). O avô general, que presidia na tribuna em dia de festa; a mãe cantora, vocalizando Mozart, os lutos, os dias de anos, as cadeiras enfeitadas de flores. Não à maneira naïve, não no estilo do aduaneiro Rousseau, não conforme a veneta da avozinha Moses. É doutra maneira. Como se voltasse à infância deliberadamente e fosse o médium da sua própria história, fecunda e copiosa como é a história da infância. Martha é finalmente pintora. O que faz um pintor é a súplica que ele põe na sua crise. Doutro modo, tudo se torna uma profissão burguesa, aberta à bagatelização. Quando a pessoa vê as coisas como algo que efectivamente nunca viu ou possuiu porque elas estão em contínuo movimento, tal a infância e os seus despojos, torna-se artista. O testemunho da consciência cria a unidade entre a diversidade de tudo o que é ao mesmo tempo estranho e familiar. Martha parte à procura da forma original, e volta àquele pequeno território da ilha onde está Martha na pontualidade dos seus quadros”. Infelizmente, Martha Telles é ainda desconhecida do grande público, apesar do seu vasto currículo, e das inúmeras exposições que fez ou de estar representada em várias coleções privadas e públicas da Europa e Canada, país que lhe deu dupla nacionalidade. Em 2003, numa edição filatélica dos CTT Portugal, dedicada aos Museus da RAM, um dos selos foi-lhe atribuído, igualmente, o número n.º48, (2011) da revista Islenha teve como tema central a sua obra. A antiga Caixa Económica do Funchal (atual BANIF), adquiriu um cartão para tapeçaria em 1984, existindo outros trabalhos seus em coleções particulares. Martha Telles é, indiscutivelmente, uma artista plástica a reencontrar, revisitar e recontar. Em carta datada do Estoril, 20/03/1999, endereçada ao atual Diretor do Museu de Arte Contemporânea do Funchal, escreveu: “Melhor que exposições, gostava que os meus quadros fossem para a Madeira e que bem os estimasse”. Em 1994, disse também, ao Jornal das Letras: “(…) quando morrer quero ir para a Quinta do Monte e por lá ficar como um fantasma.”
Comissário:Francisco António Clode de Sousa Coordenação: Direção de Serviços de Museus e Património Cultural / Diretor do Museu -José de Sainz-Trueva Apoio Técnico: Márcia de Sousa / Teresa Klut Museografia:Francisco António Clode de Sousa Texto: José de Sainz-Trueva Montagem da Exposição:Fátima Freitas / Fátima Paiva / Márcia de Sousa / Maria José Mendes / Teresa Klut / Vanda Rodrigues /Volodymyr Bobuskyy Tradução: Direção de Serviços de Museus e Património Cultural / Teresa Esmeraldo Garton Conceção e Design Gráfico:Francisco António Clode de Sousa / Márcio Ribeiro Logística:Márcia de Sousa / Joana Abreu Agradecimentos:Teresa da Cunha Telles Hall / Casa-Museu Frederico de Freitas