Ficha de Inventário

Presépio de Escadinha

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: 2018/51
  • Categoria: Festividades Cíclicas
  • Datação: 25 de Dezembro
  • Contexto Territorial: Ilha da Madeira
  • Caracterização: No século XIX generalizou-se no nosso arquipélago dois tipos de presépios tradicionais: o presépio de "rochinha" e o presépio de "escadinha", pequeno altar, de dois ou três degraus, colocado sobre uma mesa, no qual é entronizado o Menino Jesus, abençoando do alto os produtos da terra. Os degraus e a mesa são ornamentados com pastores (figurado de barro) frutas e elementos vegetais. Antigamente, nas zonas rurais, era comum utilizarem-se as medidas de cereais para formar o trono. Para construir o presépio de escadinha armam, em primeiro lugar, o chamado sobre-céu. Trata-se de uma estrutura confecionada com arame e cana-vieira, montada em forma de um arco e coberta com alegra-campo, planta com a designação científica de "semele androgyna". Esta forma de armar o presépio de escadinha com um arco de verduras, fixo à parte dianteira da mesa, com a ajuda de canas, comum na nossa Região, era conhecido em Portugal por “presépio armado em capela” ou “presépio em arco” e era popular em zonas do interior do Algarve. O arco de verduras é depois ornamentado com alguns frutos ou rosários de castanhas. O povo utilizava o que tinha disponível. Terminado o sobre-céu inicia-se, então, a armação da escadinha. O menino Jesus é colocado no topo, enquadrado num arco de flores de papel, em forma de auréola, abençoando, do alto, os produtos da terra, representados no presépio. Por vezes, coloca-se na mão do Menino, uma espiga de trigo, com o mesmo fim. O arco de flores do Menino Jesus era tradicionalmente confecionado com papel e possuíam variadas morfologias. Atualmente já são muito poucos os artesãos que confecionam este artefacto. Nos vários degraus e em volta da escada são dispostos, alternadamente, os chamados pastorinhos, figurado em barro, representando usualmente profissões tradicionais, as chamadas “cabrinhas”, planta da família das polipodáceas e as searas. A 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, demolham-se sementes de trigo, tremoços, milho, favas, ervilhas ou lentilhas, as quais são colocadas em vasos, por altura da primeira Missa do Parto, para germinar as chamadas searinhas, que são colocadas no presépio, sendo o verde abundante anúncio de boa sementeira. Este costume também é comum no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Baixa, Coimbra, Açores, Brasil e antigas colónias portuguesas. Em algumas localidades da nossa ilha, fazia parte da tradição, após os festejos do Natal, colocar uma destas searas no meio das sementeiras, apelando o povo a um ano fértil. As frutas, que também eram dispostas nos degraus e em volta da mesa, variavam consoante a localidade, utilizando o povo os produtos da terra que tinham à sua disposição. Colocavam-se castanhas, tabaibos, nozes, laranjas, tangerinas e peros, sendo estes três últimos frutos os mais comuns. O povo oferece estas prendas ao Menino Jesus, para que Ele abençoe as árvores de fruto e as sementeiras. Já os povos pagãos tinham este costume, pois ofereciam produtos agrícolas aos deuses para que os protegessem. Saturno era o deus romano das sementeiras e era no mês de Dezembro que os romanos celebravam as feriae sementinae (as sementeiras de Dezembro). Colocavam, ainda, nas escadinhas uma pequena garrafa de vinho e os chamados brindeiros, pequenos pães com os quais era comum, nas zonas rurais, os afilhados presentearem os padrinhos. Este presépio tradicional era ainda ornamentado com pequenas jarras de oratório, os solitários, nos quais se colocavam flores de papel ou flores naturais, sendo comum o uso de junquilhos, planta com o nome científico de "Cyperus laevigatus", flores de ensaião, da família das "crassuláceas" e, mais recentemente, "sapatinhos", com o nome científico de "Paphiopedilum insigne". Por fim, é colocada uma lamparina com azeite, a arder, diante do Menino Jesus.
  • Origem/Historial: O presépio, palavra de origem latina, (praesepium) significa manjedoura, curral, estrebaria ou, cocheira. A veneração do nascimento de Jesus, data do séc. III, com as peregrinações à gruta de Belém, onde se diz este ter ocorrido. No entanto este acontecimento só é representado desde o séc. IV Segundo parece, a primeira réplica da gruta foi criada em Roma, na Basílica Liberiana, dita Santa Maria Maggiore. Acredita-se que tinha como relíquias, fragmentos de rochas e madeiras, que se dizia serem da gruta e da manjedoura de Belém . A primeira representação conhecida da Virgem Maria com o Menino, remonta, ao ano de 380 e foi descoberta em Roma, nas catacumbas de São Sebastião, a decorar uma parede da sala mortuária de uma família cristã. O Menino está deitado numa mesa do qual vê-se o burro e o boi. A tradição de se montar um presépio, fora da igreja, remonta ao século XIII, mais precisamente a 1223, quando São Francisco fez uma reconstituição humanizada do presépio, nos campos de Greccio, no Vale de Rieti, próximo de Assis. É com este presépio de tamanho real que a representação do nascimento de Jesus sai dos altares das igrejas, para entrar todos os anos nas casas dos homens, aproximando Deus do homem simples. O objetivo de São Francisco, era deslocar a adoração dos fiéis do espaço rico das igrejas, mais adequado que à Fé, para a atmosfera sem artifícios da Natureza, lembrando a comunhão e a promessa simbolizados por Jesus nessa data. São Francisco defendia uma religião humanitária, mais próxima do homem simples, defendendo a passagem do ofício em latim para a linguagem corrente e o uso da representação como um meio de divulgar a fé, na qual o presépio de Greccio era um exemplo. Segundo parece, Santa Clara, contemporânea e amiga deste, difundiu o presépio pelos conventos e por outras ordens religiosas. Outras no entanto, defendem que o presépio é inspirado nas representações dos mistérios, dos princípios da Idade Média. O presépio foi introduzido em Portugal, por influência dos Franciscanos, após o casamento de D. Dinis com a rainha Santa Isabel. É no séc. XVII que a espiritualidade da infância de Cristo adquire importância. Este movimento iniciado por São Bernardo de Claraval, desperta o interesse pelas imagens do Menino Jesus. Os conventos de Beaume e Avignon difundiram a devoção dos Meninos em cera que se espalharam pelos conventos da Europa. Ao longo do séc. XVIII surgem os imaginários com os seus retábulos e imagens do Menino, que colocam em cima de uma peanha. Em Portugal, a devoção ao Menino Jesus entrou por intermédio da Ordem Franciscana, sendo a partir do Convento de São Domingos, de Lisboa, que a devoção irradiou por todo o País, tendo os religiosos de São Domingos a levado para o Alentejo e para o Algarve. Segundo alguns investigadores, o presépio escadinha, pretende imitar o altar-mor das igrejas, tem origem em terras algarvias e alentejanas e terá sido introduzido no nosso arquipélago pelos primeiros colonos, tendo-se aqui mantido a tradição. Em Portugal este presépio é também conhecido por altarinho, escadaria, penha ou charola. Terá tido, provavelmente, origem em França, na Provença, onde era denominado “la chapelle” e terá sido divulgado por toda a Europa, a partir da primeira metade do Século XIX.

Bibliografia

  • CARVALHEIRA, P. José do Vale, Nossa Senhora na História e Devoção do Povo Português, Edições Salesianas, 1988
  • DUARTE, Pe. José da Cunha. Natal no Algarve - Raízes Medievais, Edições Colibri, Lisboa, 2002
  • IDEM Algarve. Presépio tradicional, In Revista Vilas e Cidades, Ano V, Nº 49, Dezembro 2000
  • VIRÍSSIMO, Nelson; Natal Madeirense, Povos e Cultura: CEPCEP, ISSN 0873 - 5921, Nº 11, 2007
  • GOCKERELL, Nina. Nacimientos - Presepi.Presépios. Bayerischs Nationalmuseum Munchen, Taschen, Lisboa, 1998

Exposições

  • Presépios tradicionais Madeirenses: O Presépio de Escadinha

    • Museu Etnográfico da Madeira.
    • 14/12/2016 a 15/1/2017
    • Exposição Física
  • Presépios Madeirenses

    • 10/12/2010 a 16/1/2011
    • Exposição Física

Multimédia

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