Ficha de Inventário

Lagar de fuso

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM96/758
  • Supercategoria: Etnologia
  • Categoria: Atividades transformadoras
  • Datação: Século 20
  • Dimensões (cm): Comp. 400 x Alt. 267 x Larg. 240
  • Descrição: Recipiente quadrangular, feito de tábuas justas, calafetadas em caixa aberta com biqueira, sobre o suporte de traves, encimando-o a vara do lagar, grossa viga articulada num extremo e apoiada no outro por uma porca, onde vem montar um alto parafuso de madeira, ligado a um pesado bloco de pedra. Esta suspendia, ao levantar-se, o parafuso do pau branco, transfurando a vara, e atuava como reforço, premindo a alavanca inter-resistente sobre o bagaço.
  • Origem/Historial: "No passado o lagar apresentava-se como um elemento primordial da faina vitivinícola, uma vez que a sua utilização era imprescindível para a transformação das uvas em vinho. O colono europeu que aportou estas terras virgens trouxe consigo, para além de alguns bacelos e de boas cepas, o instrumental (ou conhecimento) necessário para a sua construção e montagem (…). Em terras de boas madeiras teremos o lagar de madeira a rivalizar com as suas lagariças de pedra, que parecem ter sido pouco usuais na ilha." Ao findar do dia, terminada a apanha da uva, os homens procediam à pisa da uva a pé descalço. Esmagadas as uvas, o bagaço era arrumado no lagar, ao centro, e era “posto em pé" e enrolado, helicoidalmente, por uma corda, que dava o aspeto de um tronco de cone de largas bases. Sobre a superior, em todo o seu diâmetro e na direcção da vara, assentava o chamado "juiz". Em cima deste colocavam-se sucessivamente as tábuas, os malhais (designados de "porca" e "leitões") e, por último o "cachaço", pedaço de madeira de grossura variável, sendo este último o que recebia diretamente a ação da vara. O extremo livre desta grossa trave era atravessado pelo fuso que se prendia inferiormente à pesada pedra do lagar. Pondo-o em movimento de aperto, atarrachando-o à pedra, que descansava no solo, levanta-se e fica exercendo a desejada pressão sobre o "bagaço". É a chamada "empesa". Esta lagar, pouco comum em Portugal Continental, era muito usual na Ilha da Madeira. Ao nível tecnológico, é possível estabelecer a forma da sua evolução. Tudo indica que, a par dos rústicos lagares escavados na rocha, existiram outros feitos em tronco de madeira, geralmente de dragoeiro, com vara, sem parafuso, sendo o reforço do peso feito num prato como o da balança decimal. Este era conhecido como o lagar do cocho. Na documentação fala-se em lagariças de pedra e pau. Mais tarde ter-se-á generalizado o lagar quadrangular. O lagar de cocho foi o mais divulgado entre os pequenos proprietários, sendo o usual no século XVII e XVIII. (…) O lagar de madeira calafetada, com vara, seria usual nas casas de famílias abastadas, com a possibilidade dos construírem.(…) Com o andar dos tempos aperfeiçoou-se a tecnologia do lagar e avançou-se com os novos processos de feitura do vinho.(...) A primeira evolução deu-se com o aparecimento dos lagares de cimento, seguindo-se a prensa manual ou mecânica. H. Bento de Gouveia documenta esta mudança em princípios do nosso século, na zona da Ponta Delgada e São Vicente: (…) O cimento conferiu os lagares uma eternidade que a madeira não podia dar. E de facto, a substituição desta por aquele trouxe vantagens ao lavrador. Pois os lagares de madeira, todos os anos, por altura das colheitas, tinham de ser calafetados. Através das juntas das tábuas com o batuque das repisas e no ardor ainda maior de tirar do bagaço a água-pé, as pranchas davam de si e o mosto começava a pingar. As tiras apertadas por arcos de ferro também se desconjuntavam. Deixou, portanto, de haver a preocupação do conserto, semanas antes das vindimas, além de que era outra durabilidade. (…) Na actualidade, generalizou-se o uso da prensa e da máquina de moer uvas, sendo poucos os viticultores que conseravm o velho lagar de vara."
  • Incorporação: Num documento emitido pelo Presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, de 13 outubro de 1965, foi publicada a aquisição deste lagar a Maria Gabriela Correia. Esta peça que pertencia ao acervo do Museu Quinta das Cruzes (Direção Regional dos Assuntos Culturais) encontrava-se, na sua origem, numa antiga quinta, situada na calçada do Pico, nº35, na cidade do Funchal, tendo sido incorporado no espólio do Museu Etnográfico da Madeira, aquando da sua abertura em 1996. Peça transferida da DRAC (Direção Regional dos Assuntos dos Assuntos Culturais)/SRTC (Secretaria Regional de Turismo e Cultura), para o espólio do Museu.

Bibliografia

  • PEREIRA, Eduardo C.N; "Ilhas de Zarco", Vol.1, 4ª Ed., Câmara Municipal do Funchal, Funchal, 1989.
  • VIEIRA, Alberto; "O comércio inter-insular nos séculos XV e XVI. Madeira, Açores e Canárias", Secretaria Regional do Turismo e Cultura, Centro de Estudos da História do Atlântico, Funchal, 1987.
  • VIEIRA, Alberto, Breviário da vinha e do vinho na Madeira, 2ª ed. (Revista pelo autor) Eurosigno Publicações, Lda. Braga, 1991.

Multimédia

  • lagar.gif

    Imagem
  • lagar1.gif

    Imagem
  • lagar2.gif

    Imagem
  • lagar3.gif

    Imagem
  • lagar4.gif

    Imagem