Descrição: Cena rural inscrita em oval, com diversas personagens percorrendo o caminho. Os viajantes transitam a cavalo e em rede, enquanto os camponeses (vilões) seguem nas suas lides quotidianas. O cavaleiro de vestes escuras, tricórnio na cabeça e abrigado por sombrinha, cavalga acompanhado pelo respetivo burriqueiro que segura a cauda da montada. Ao lado o boieiro, de carapuça erguida num cumprimento, guia uma parelha de bois que arrasta a corsa carregada com pedras. Na rede transportada por dois carregadores abriga-se uma outra personagem e, um pouco atrás, caminha um borracheiro com o borracho suspenso na vara. O grupo cruza com duas viloas, descalças, carregadas com cesta e molhos de erva à cabeça.
Os vilões vestem a indumentária tradicional, camisas e calções de linho branco, carapuças afuniladas, casacos azuis e calçam bota-chã. À direita uma latada esconde uma casa de chaminé fumegante e ao fundo recortam-se escuras montanhas, por entre nuvens, num céu azul com pássaros.
Origem/Historial: Registo que pertence a um álbum, de 51 desenhos, dos quais 38 são relacionados com a Madeira e os restantes de localidades estrangeiras, ou pequenos apontamentos soltos. A contracapa desse álbum apresenta um ex-Libris, em papel recortado e colado sobre fundo de seda pintada, composto por escudo, ladeado por plumas, encimado por elmo, paquife e, no topo, uma águia lutando com uma serpente. Escudo bipartido nas cores, azul (azur) e branco (prata), com cavalo ao centro, pintado a duas cores: torso azul e traseira branca. No cimo da folha a consta a seguinte informação, manuscrita a lápis: “38 Madeira Drawings & a few others”.
Não se sabe quem foi o seu autor, mas presume-se que seja britânico, porque alguns desenhos incluem textos em inglês e pelo menos duas das aguarelas retratam locais de Devonshire. O álbum não faz qualquer referência a datas, mas pela indumentária de algumas personagens retratadas é possível atribuir uma época aproximada, dos inícios do século XIX, mais concretamente de cerca de 1800-1830.
Numa época em que não existia a fotografia, o registo de imagem através do pequeno apontamento de desenho era uma forma de ilustrar e de conservar memórias de uma viagem. Não se trata aqui de cadernos de esboços ou diários gráficos com finalidades artísticas, mas de registos para uso pessoal ou partilha com um grupo restrito de familiares ou amigos. Os álbuns e os portefólios de aguarelas e desenhos tornam-se uma moda a partir do final do século 18. Podiam ser de um único autor ou reunir trabalhos de diversas autorias, sendo posteriormente, após o regresso à terra natal, organizados e encadernados, passando a integrar as bibliotecas privadas. Serviam de recordações, tal como mais tarde se usaram os álbuns de postais ou de fotografias. Dependendo da sensibilidade e do interesse de cada um, registava-se o pitoresco, o exótico, os costumes locais, aquilo que chamava particularmente a atenção por ser diferente. Um álbum de viagem é sobretudo um testemunho individual e subjetivo, mas é também um importantíssimo documento iconográfico, porque fixa aspetos raramente representados de outro modo, que não a escrita.
Os diferentes desenhos realizados em folhas de papel, posteriormente recortadas e coladas nas folhas do álbum, encontravam-se individualizados e separados, pelo que a sua inventariação não foi sequencial. Atualmente foi possível identificar o conjunto e reconstituir parcialmente a ordem dos desenhos nas respetivas páginas. Desconhece-se como, ou em que condições, este álbum foi adquirido pelo Dr. Frederico de Freitas.
Incorporação: Testamento
Centro de Fabrico: Madeira, Portugal
Bibliografia
Estampas, Aguarelas e Desenhos da Madeira Romântica (Catálogo). Funchal: DRAC/ SRTC, 1988
Exposições
Estampas, Aguarelas e Desenhos da Madeira Romântica
Portugal: Funchal, Casa-Museu Frederico de Freitas