Descrição: Desenho, delineado à pena, colorido a aguarela em tons de azul, verde, vermelho, castanho, amarelo e cinza. A cena parece representar um cortejo fúnebre a passar numa zona central da cidade. Na rua, pavimentada com grandes pedras roladas, passa o cortejo encabeçado pelos frades que levam os estandartes e o turíbulo fumegante, seguindo-se o esquife do defunto com os seus carregadores e alguns populares. Dois homens, um militar e um civil, de costas e de cabeça descoberta, em sinal de respeito, observam o grupo que passa. Os restantes distribuem-se pela rua, alguns usando o traje tradicional, botas, calção e camisa de linho branca, ou saia listada, lenço e carapuça, como o homem que carrega ao ombro a vara com dois peixes pendurados, ou a mulher que cata piolhos a uma criança acocorada a seus pés. Os outros conversam ou parecem pedir esmola, indiferentes ao que se passa.
Servem de fundo as frentes irregulares dos edifícios, uns térreos, outros de um, dois ou mais pisos, com as suas janelas, varandas ou balcões de madeira e telhados semeados de pedras, para impedir que as telhas levantassem com o vento.
Origem/Historial: Este desenho aguarelado parece representar um cortejo fúnebre, pelo facto de os religiosos levarem os estandartes erguidos, as varandas se apresentarem vazias, sem espetadores e algumas das pessoas da rua se mostrarem em atitude indiferente. Tal não seria provável caso se tratasse da procissão do Enterro do Senhor. Ocasião mais solene que com certeza envolveria outro cerimonial, maior devoção e recolhimento por parte da população local. Na realidade até cerca de 1835, os enterramentos tinham lugar dentro dos recintos sagrados das igrejas e capelas, sendo provável que nos casos de menos posses os cortejos seguissem a pé, com os defuntos transportados em esquifes, em vez de caixões.
Este curioso registo pertence a um álbum, de 51 desenhos, dos quais 38 são relacionados com a Madeira e os restantes de localidades estrangeiras, ou pequenos apontamentos soltos. A contracapa desse álbum apresenta um ex-Libris, em papel recortado e colado sobre fundo de seda pintada, composto por escudo, ladeado por plumas, encimado por elmo, paquife e, no topo, uma águia lutando com uma serpente. Escudo bipartido nas cores, azul (azur) e branco (prata), com cavalo ao centro, pintado a duas cores: torso azul e traseira branca. No cimo da folha a consta a seguinte informação, manuscrita a lápis: “38 Madeira Drawings & a few others”.
Não se sabe quem foi o seu autor, mas presume-se que seja britânico, porque alguns desenhos incluem textos em inglês e pelo menos duas das aguarelas retratam locais de Devonshire. O álbum não faz qualquer referência a datas, mas pela indumentária de algumas personagens retratadas é possível atribuir uma época aproximada, dos inícios do século XIX, mais concretamente de cerca de 1800-1830.
Numa época em que não existia a fotografia, o registo de imagem através do pequeno apontamento de desenho era uma forma de ilustrar e de conservar memórias de uma viagem. Não se trata aqui de cadernos de esboços ou diários gráficos com finalidades artísticas, mas de registos para uso pessoal ou partilha com um grupo restrito de familiares ou amigos. Os álbuns e os portefólios de aguarelas e desenhos tornam-se uma moda a partir do final do século 18. Podiam ser de um único autor ou reunir trabalhos de diversas autorias, sendo posteriormente, após o regresso à terra natal, organizados e encadernados, passando a integrar as bibliotecas privadas. Serviam de recordações, tal como mais tarde se usaram os álbuns de postais ou de fotografias. Dependendo da sensibilidade e do interesse de cada um, registava-se o pitoresco, o exótico, os costumes locais, aquilo que chamava particularmente a atenção por ser diferente. Um álbum de viagem é sobretudo um testemunho individual e subjetivo, mas é também um importantíssimo documento iconográfico, porque fixa aspetos raramente representados de outro modo, que não a escrita.
Os diferentes desenhos realizados em folhas de papel, posteriormente recortadas e coladas nas folhas do álbum, encontravam-se individualizados e separados, pelo que a sua inventariação não foi sequencial. Atualmente foi possível identificar o conjunto e reconstituir parcialmente a ordem dos desenhos nas respetivas páginas. Desconhece-se como, ou em que condições, este álbum foi adquirido pelo Dr. Frederico de Freitas.
Incorporação: Testamento
Centro de Fabrico: Madeira, Portugal
Bibliografia
Estampas, Aguarelas e Desenhos da Madeira Romântica (Catálogo). Funchal: DRAC/ SRTC, 1988
Exposições
Estampas, Aguarelas e Desenhos da Madeira Romântica
Portugal: Funchal, Casa-Museu Frederico de Freitas