Ficha de Inventário

Carro chião

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM96/156
  • Supercategoria: Etnologia
  • Categoria: Transportes
  • Datação: Século 20
  • Dimensões (cm): Comp. 471 x Alt. 187 x Larg. 155
  • Descrição: Este veículo é constituído pelo chedeiro, ou mesa, e pelo rodado. A mesa possui uma forma com linhas que convergem simetricamente para a parte dianteira. De cada lado da mesa, ao longo dos seus bordos existem as perfurações, onde se espetam umas varas, os fueiros. A superfície da mesa é constituída por uma área plana, feita de travessas cruzadas, umas em sentido paralelo ao cabeçalho, vara que se prolongava até à frente e onde se ajustava o sistema de atrelagem aos animais, outras dispostas perpendicularmente. As travessas encaixam nos bordos da mesa. O rodado ajusta-se na parte inferior da mesa, através de um dispositivo também de madeira, as chamaceiras. Da chamaceira saem duas varas bastante curtas, as cantadeiras. O rodado propriamente dito consta do eixo e duas rodas a ele fixas. As rodas feitas de um só bloco, dai se chamarem cheias, são destituídas de raios ou de hastes. Destas três peças, a maior era a do centro, onde se prendia o eixo do carro. As outras duas têm dimensões quase idênticas, lembrando um sector circular. O ajustamento destas peças faz-se pelo arco, uma chapa metálica que envolve a roda, pelo perímetro, unindo as partes de madeira. Está cravejado com enormes pregos, com as cabeças voltadas para fora. O carro possui ainda uma pequena peça, a tarracha, por baixo do eixo, que une as duas pontas das cantadeiras. Esta peça de metal é apertada através de uma porca, juntando ou afastando as cantadeiras de cada lado do carro.
  • Origem/Historial: O carro de vacas era constituído pelo chedeiro, ou mesa, e pelo rodado. A mesa, (..) tinha uma forma bastante bizarra (..); esta parte não tem cantos, as suas linhas são arredondadas, convergindo simetricamente para a parte dianteira. Provavelmente tais características facilitavam a condução do carro nos caminhos difíceis da serra, evitando que o veículo ficasse preso aos ramos das árvores ou dos arbustos. De cada lado da mesa, ao longo dos seus bordos existiam quatro perfurações, onde se espetavam umas varas, os fueiros, que serviam para segurar e amparar a carga transportada, encontrando se estes amarrados entre si por grossas cordas. A superfície da mesa era constituída por uma área plana, feita de travessas cruzadas, umas em sentido paralelo ao cabeçalho vara que se prolongava até à frente e onde se ajustava o sistema de atrelagem aos animais , outras dispostas perpendicularmente. As travessas encaixavam nos bordos da mesa. Vemos assim como o carro de vacas não permitia transportar mercadorias a granel, por·exemplo grão debulhado; servia sim para madeiras, lenha, ou talvez mesmo para cestos de uva vindimada. O rodado ajustava se na parte inferior da mesa, através de um dispositivo também de madeira, as chamaceiras. Eram feitas de material bastante mais mole que o eixo, tornando se necessária, dado o rápido desgaste, a sua substituição periódica. Da chamaceira saíam duas varas bastante curtas, as cantadeiras, que mantinham o rodado na sua posição em relação à mesa. Estas peças, em contacto permanente com o rodado criavam atrito durante a deslocação, provocando um ruído estridente. O rodado propriamente dito constava do eixo e duas rodas a ele fixas; isto significava que estes componentes rodavam em simultâneo, daí a mobilidade rotativa do primeiro destes elementos. As rodas eram muitas vezes feitas de um só bloco, dai se chamarem cheias, e portanto, destituídas de raios ou de hastes. Noutros casos eram formadas por três peças ligeiramente encurvadas para dentro, a fim de garantirem melhor resistência ao peso sobre elas exercido pela carga, mas também para maior robustez ao circularem pelos pisos tão irregulares. Destas três peças, a maior era a do centro, onde se prendia o eixo do carro. As outras duas tinham dimensões quase idênticas, lembrando um sector circular. O ajustamento destas peças fazia se pelo arco. Este era uma chapa metálica que envolvia a roda, pelo perímetro, unindo desta maneira as partes de madeira. A fim de não sair da sua posição, era cravejado com enormes pregos, cujas cabeças ficavam propositadamente voltadas para fora. O arco evitava o desgaste da roda, enquanto os enormes pregos seguravam o carro na sua marcha sobre o terreno de terra, frequentemente húmido e escorregadio; impediam o pior para os boieiros e animais, o constante deslize do veículo para fora do caminho (..). Para terminar a descrição do carro de vacas, falta mencionar uma pequena peça, chamada tarracha, que, por baixo do eixo, envolvia, unindo as duas pontas das cantadeiras. Tratava se de um elemento de metal susceptível se ser apertado através de uma porca, juntando ou afastando as cantadeiras de cada lado do carro. Durante a deslocação, estas peças eram apertadas ou alargadas consoante as exigências do piso ou do declive e a respectiva reacção dos animais cangados (...). Parece provável que a introdução deste mecanismo rudimentar de travagem se tenha verificado em finais do século passado, ou mesmo já na passagem para o actual. Em tempos anteriores os carros rurais circulavam, saltando de cova em cova pelos declives dos caminhos improvisados para penetrar na serra, sem qualquer dispositivo de controlo da velocidade. No entanto, o aperfeiçoamento deve significar alguma alteração na situação até então vigente. Penso que se trata da sua maior difusão. Neste período, veículos deste género, apesar da sua chiadeira, devem ter começado a ser utilizados num maior número de tarefas. (Branco, 1987:116-118).
  • Incorporação: Peça adquirida pela DRAC, a João Francisco Pontes e foi transferida e incorporada no espólio do Museu Etnográfico da Madeira, aquando da sua abertura em 1996.

Bibliografia

  • BRANCO, Jorge Freitas; "Camponeses da Madeira, As bases materiais do quotidiano no Arquipélago (1750/1900)", Lisboa: Publicações D. Quixote, Col. Portugal de Perto, 1987.

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