Ficha de Inventário

Missas do Parto

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2018/49
  • Categoria: Festividades Cíclicas
  • Datação: 16 a 23 de Dezembro
  • Contexto Territorial: Madeira
  • Caracterização: Estas missas têm a particularidade de serem celebradas de madrugada, geralmente entre as 5 e as 7 horas da manhã, em quase todas as paróquias da Madeira e Porto Santo. Geralmente cada sítio celebra uma missa, com a organização distribuída pelos diferentes sítios. É costume haver um festeiro ou uma comissão que percorrem as casas, recolhendo dinheiro para as despesas como as ornamentações, com o pessoal, incluindo o clero, com o fogo, a banda, a iluminação e outras. Por vezes são os emigrantes que pagam as despesas, como cumprimento de promessas feitas ou são instituições que as assumem. Alguns ainda fornecem comes e bebes que são distribuídos no dia em que celebra a missa do sítio. Em Câmara de Lobos, quando se recolhe o dinheiro, os encarregados ficam a saber quais as casas e estabelecimentos que pretendem receber a Banda Municipal, homenageando aqueles que contribuíram. Durante as noites de 16 a 25 de Dezembro, costumam primeiro a tocar o hino das Oitavas à porta e depois são convidados a entrar para conviver, beber e comer petiscos da época, “os dentinhos”. Ainda tocam uma ou mais músicas e uma de novo à saída. Quanto maior for a dádiva mais tempo ficam a tocar e têm direito a foguetes. O hino da coletividade, só é tocado quando se visita a casa de um sócio, músico ou então de um dirigente. Também são colocados mastros com bandeiras de arraial e enfeitados com ramalhos de murta, à porta dos mordomos. Servem de ponto de referência à banda que toca o hino em sua honra. Ao meio-dia é queimado uma girândola depois dos sinais, do hino da filarmónica e da salva. Nesta altura, as paredes das igrejas estão decoradas com “rosários” feitos com longos ramos de alegra-campo e os altares com flores da época. Em todas as igrejas está montado um presépio. Além dos sinos das igrejas tocarem avisando a hora da missa, ainda é costume as pessoas levarem ferrinhos, sinos ou outros, que produzem som, acordando os vizinhos que querem participar nesta tradição. Nas freguesias de Câmara de Lobos, Estreito de Câmara de Lobos e da Quinta Grande ainda lançam foguetes e bombas e as bandas filarmónicas percorrem as ruas de madrugada, para anunciar a missa. Antigamente, nas zonas rurais, por volta das duas da manhã tocava-se um búzio com o seu toque característico, para acordar os habitantes. Depois de reunidos percorriam os caminhos a pé até chegarem à igreja, cantando ao som de instrumentos musicais tais como castanholas, pífaros, harmónios, violas de arame, rabeca, braguinha, entre outros. Ao Menino nascer Que gosto teremos Oh! Quanto felizes Todos nós seremos Anjos e pastores Vinde em harmonia A louvar o parto Da virgem Maria Outra muito cantada em Gaula: Eu vou p’ra Missa do Parto Que a minha mãe me mandou Vou rezar um Padre-nosso Por alma de meu avô Em São Vicente canta-se a seguinte: Bendito e louvado seja A Conceição de Maria É dos anjos a patrona Vós sois manos da guia Muitos traziam um cantil com bebidas. Com o desenvolvimento ferroviário, são cada vez mais raras estas manifestações. Na última década do século XX, em muitas igrejas, as missas são feitas com os coros das igrejas ou grupos de cantares, que cantam versos populares, próprios da ocasião, acompanhados com instrumentos regionais. Este vasto reportório foi recolhido por João Rufino da Silva e pelo Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira. De entre eles destacam-se a “Conceição”, a “Maternidade”, o “Retrato de Nossa Senhora” e a “Ó Virgem Soberana” que fazem parte da novena. Entoa-se, então, “Virgem do Parto, ó Maria,/Senhora da Conceição,/dai-nos as Festas felizes,/a paz e a salvação, na abertura e no encerramento das “Missas do Parto”! No sítio da Ribeira Seca, Machico canta-se esta; Cantemos fiéis Desta freguesia Louvamos o doce Nome de Maria Ref: Cantemos, cantemos, Cheios de alegria Louvemos o doce Da Virgem Maria Anjos e pastores Vinde em harmonia Para louvar o parto Da Virgem Maria Que triste mosquinha Que de mim seria Se não fosse o doce Nome de Maria Ó meu Jesus Cristo Que Vós aí estás Nesse altar sagrado Bendito sejais Ó Virgem Maria Ó Virgem ditosa Nossas orações Escutai piedosa Atualmente findo a missa, é frequente em muitas igrejas estes grupos tocarem no adro, onde as pessoas reúnem-se para conviver e consumir os licores, poncha ou outras, as bebidas quentes como o cacau, as sandes de carne vinha-d’alhos e a doçaria da época. Nalguns lugares, como a Ribeira Brava, estes grupos prosseguem depois pelas diversas ruas e estabelecimentos, com músicas típicas da quadra natalícia, ao som dos instrumentos tradicionais. Hoje em dia, as tradicionais romagens com oferendas de produtos da terra ao som de poemas populares, que se realizavam na Missa do Parto já não são frequentes, com exceção nalguns lugares da ilha. Em 2001 no Curral das Freiras essa tradição foi cumprida, com oferendas e com o seguinte poema popular: “Bom dia a toda a gente A todos vamos saudar. Pedimos à Virgem do Parto Para nos abençoar. Bom domingo para todos Desejamos nesta hora Ao senhor Padre Fiel E aos que vieram de fora A todos vamos cantar O que neste sítio havia Um santo e uma capela E uma fonte cristalina Lá no fundo das montanhas Num canto da nossa terra Foi o refúgio das freiras No tempo da antiga guerra. Aí lembram-se os mais velhinhos Lembram-se muito bem dela. Era lá que existia A nossa rica capela Era perto da capela Que as freirinhas se acolhiam Era numa velha casa Onde as freiras lá dormiam Também nesta capelinha A missa era ali rezada Não havia esta igreja Santo António já lá estava. Numa fonte cristalina Santo António por ali andava Foi levado pra bem longe Mas ele sempre voltava À saída da capela Estava um grande encanto Ainda lá permanecem As pedras do terreiro santo Somos Capela e Murteira É lá o nosso cantinho É lá que passa a levada Que regam em São Martinho Há muitos anos atrás Era a levada a caminho Passavam os borracheiros Que transportavam o vinho Aqui temos a levada Tão grande que ela é Termina em São Martinho O turismo vai a pé Já não é do nosso tempo Que esta rede foi usada Onde transportar muita gente Nas veredas e na levada Aqui temos esta murta Foi apanhada na eira Representa a nossa origem Por isso chamam Murteira. E aos nossos falecidos Também queremos lembrar Um dia aqui estiveram Também connosco a cantar Senhor Bispo do Funchal Hoje está aqui connosco Nesta manhã tão serena Recebido com muito gosto Ao senhor padre Fiel Queremos agradecer Celebrar a nossa Missa Para nós é um prazer Pedimos ao Sr. Bispo E vamos pedir agora Que o senhor padre Fiel Nunca vá daqui embora A todo as Boas Festas Nós queremos desejar Aos doentes e velhinhos Que tenham um feliz Natal” Também em muitos lugares era na primeira Missa do Parto que se matava os porcos, havendo um convívio de familiares e amigos, bebendo e comendo petiscos, alguns feitos com o porco, como o sarapatel, o fígado e o coração, enquanto decorria a função. Na Serra d’Água, por altura da morte do porco cantava-se assim: Menino Jesus Diga à sua mãe Que mate o porquinho Que a Festa já vem Nestas datas costumam-se “deitar as searas de molho”. No dia de Nossa Senhora da Conceição, põe-se o milho a hidratar e na primeira Missa do Parto, o trigo, a lentilha, o tremoço, a alpista ou o chícharo. Quando começam a germinar, plantam-nas em pequenos vasos de barro com terra e quando as searinhas estão crescidas, colocam-nas na lapinha. Também era costume depois da última missa do parto, a ida para o mercado. Segundo Alberto Artur ante alvorada, após a última missa do parto, quase irreverentemente, no turbilhão do empurro ao sair da igreja, era uma azáfama, um borborinho, em seguir a Praça, ao Mercado, ir às compras das flores, dos frutos, escolher as folhagens festivas, os baraços ornamentais para as lapinhas, a fim de adornar o Menino, e trazer comezanas fartas para casa, para os dias da família reunida. O Mercado só, era pouco, para conter a folia das mercas. Improvisados mercados se patenteavam, nos largos mais espaçosos, pelo tabuleiro das pontes, pelos muros das ribeiras, chegavam produtos de toda a parte, da serra e do mar – camponeses com cestos de carga, barcos vinham da Costa de Cima, outros, da Costa de Baixo com variadas coisas. O antigo dia do mercado deu lugar à “noite do mercado”, que movimenta milhares de pessoas, mas não pela necessidade de comprar o que ali se oferece, mas sim pelo convívio. CÂNTICOS DAS MISSAS DO PARTO PARÓQUIA DA RIBEIRA BRAVA 2016 1 - Virgem do Parto, Mãe dos pecadores, ouvi com piedade os nossos clamores. (bis) Virgem do Parto, Ínclita Maria, atendei propícia aos devotos deste dia. (bis) 2 - Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres, bendito o fruto do Vosso ventre, Jesus, Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Ámen! 3 - P. Deus, vinde em nosso auxílio. T. Senhor, socorrei-nos e salvai-nos. P. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo T. Como era no princípio, agora e sempre. Ámen! Aleluia! 4 -Vinde, Espírito Divino, lá das celestes alturas. A chama da Vossa graça acendei nas criaturas. Assim seja, assim se faça, neste século e no futuro. Para que nos alegremos em prazer e gozo puro. P. Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado. T. E renovareis a face da terra P. Oremos: Ó Deus que instruís os corações dos Vossos fiéis com as luzes do Espírito Santo, concedei-nos no mesmo Espírito saber o que é reto e gozar sempre das Suas consolações. Por Nosso senhor, Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. T. Ámen! NB. Recitação do Terço (costume) intercalado com cânticos indicados a seguir e Ladainha, ou só Ladainha. 5 - Ladainha a Nossa Senhora Senhor, tende piedade de nós – Senhor, tende piedade de nós Cristo tende piedade de nós – Cristo, tende piedade de nós Senhor, tende piedade de nós – Senhor, tende piedade de nós Cristo, ouvi-nos – Cristo, atendei-nos Pai do céu que sois Deus – Tende piedade de nós Filho Redentor do mundo que sois Deus – Tende piedade de nós Espírito Santo que sois Deus – Tende piedade de nós Santíssima Trindade que sois um só Deus – Tende piedade de nós C. Santa Maria Rogai por nós C. Virgem Fiel Rogai por nós Santa Mãe de Deus Espelho de Justiça Santa Virgem das Virgens Sede de Sabedoria T. Mãe de Cristo T. Causa da nossa Alegria C. Mãe da Igreja C. Vaso Espiritual Mãe da Divina Graça Vaso Honorífico Mãe Puríssima Vaso Insigne de Devoção T. Mãe Castíssima T. Rosa Mística C. Mãe Inviolata C. Torre de David Mãe Imaculada Torre de Marfim Mãe Amável Casa de Ouro T. Mãe Admirável T. Arca de Aliança C. Mãe do Bom Conselho C. Porta do Céu Mãe do Criador Estrela da Manhã Mãe do Salvador Saúde dos Enfermos T. Virgem Prudentíssima T. Refúgio dos Pecadores C. Virgem Venerável C. Consoladora dos Aflitos Virgem Louvável Auxílio dos Cristãos Virgem Poderosa Rainha dos Anjos T. Virgem Clemente T. Rainha dos Patriarcas C. Rainha dos Profetas C. Rainha das Virgens Rainha dos Apóstolos Rainha de todos os Santos Rainha dos Mártires Rainha concebida sem pecado T. Rainha dos Confessores T. Rainha Elevada ao Céu C. Rainha do Santíssimo Rosário Rainha da Família Rainha da Paz Virgem do Parto 6. Antífona da Senhora do Parto Salve, ó Mãe do Salvador, brilhante Estrela-do-mar. Deste o Salvador ao mundo, faze-nos no céu entrar. (bis) P. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus. T. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo P. Oremos: Senhor nosso Deus, nós Vos suplicamos: concedei aos Vossos servos, Perpétua saúde de alma e do corpo, e pelo Parto Virginal da Bem-Aventurada Virgem Maria, sejamos livres das presentes tristezas e gozemos da eterna alegria. Por Cristo Nosso Senhor na unidade do Espírito Santo. T. Ámen! NB. Nos dias 17 e 24 em vez da oração anterior pode recitar-se a Coleta da Missa do dia, seguindo-se a Liturgia da Palavra. OUTROS CÂNTCOS PARA A MISSA DO PARTO 7. Aqui de joelhos aos pés de Maria, Lhe rendemos graças com muita alegria. Baixai lá no Céu, Menino adorado, Nascido num presépio para nosso amparo. Dai-nos Vosso Filho, ó Virgem Maria, Rainha dos céus e da terra alegria. 8 - Dizei à Senhora, ó vós que A louvais: Avé, ó Maria, bendita sejais. Ref. Bendita, bendita, mil vezes e mais: Avé, ó Maria, bendita sejais. Ó Virgem soberana que o mundo alegrais: Sois cheia de graça, bendita sejais. Nos céus e na terra, onde quer que estais: Jesus é convosco, bendita sejais. Celeste princesa em tudo imperais Bendita sois Vós, bendita sejais. 9 - Cantemos, cantemos, cheios de alegria; Louvemos o doce Nome de Maria. Ref. Cantemos, cantemos, cheios de alegria. Louvemos o doce nome de Maria. Anjos e pastores, vinde em harmonia. P’ra louvar o Parto da Virgem Maria Que nome há mais Santo, que voz há mais pia; Que o Santo, que o pio, Nome de Maria. Ó nome sagrado, ó voz branda e pia; Ó caro penhor, nome de Maria. 10 - Bendito e louvado seja: O puríssimo parto da Virgem Maria. Os anjos A louvam no céu, e os homens na terra com santa alegria. Bendita na vida e na morte. Nos cubra com sorte de graça e de luz! Contritos e arrependidos, Pedimos as bênçãos do nosso bom Jesus. 11 - Meu Deus, que alegria hoje nos causais Assim manifesto, bendito sejais. Ref. Bendito, bendito mil vezes e mais, Nos céus e na terra bendito sejais. De anjos e luzes Vos acompanhais, Nesse altar sagrado, bendito sejais. O trono supremo do céu ocupais No mundo hoje o temos, bendito sejais. Ó que Vos amara como Vós amais Quem do amor morrera, bendito sejais. 12 - Ó meu Deus imenso eu quero ser vosso, Por isso Vos rezo este “Pai Nosso” Ref. Ao Menino nascer que gosto teremos. Oh, quanto felizes todos nós seremos Vós que estás no cálice coberto com um véu: Sois Pai Nosso, Vós que estais no céu. Amo-Vos, meu Deus, com todo o cuidado; Vós que estais no céu, sois santificado. Ouvi uma voz, mas não sei aonde: São anjos que louvam, Vosso Santo nome. Amo-Vos, meu Deus, com todo o empenho, Senhor, venha a nós, Vosso Santo Reino. Ouvi uma voz no céu de bondade, Que seja feita a Vossa vontade. No trono supremo se abriu um véu, Assim na terra como no céu. Vós que estais no céu cheio de alegria, Dai-nos o Pão Nosso de cada dia. 13. Bendita e louvada seja a Conceição de Maria Que dos anjos é patrona e dos homens alegria. Ref. Louvado sejais, Senhora, em Vossa Conceição; Vós sois Mãe e protetora da portuguesa nação. Sois açucena mais pura que Deus no jardim criou, Para ser feliz sacrário onde Deus-Verbo incarnou. Vóis sois Mãe do Rei supremo, Criador Universal, Que nos criou o eterno sem culpa original. Mais formosa sois que a lua entre a flor e girassol, Enfim, acendei, Senhora, da candura o mesmo sol. 14 - Salvé, Rainha, Mãe de Misericórdia, Vida doçura, esperança nossa. Ref. Bendita sois, Senhora minha Ouvi meus rogos, Salvé Rainha (ou Virgem do Parto, Salvé Rainha) A Vós brandemos os degredados, Filhos de Eva, a Vós suspiramos. Gemendo e chorando neste vale de lágrimas, Eia, pois, Advogada nossa. Esses Vossos olhos misericordiosos, A nós volvei, e depois, Deste desterro nos mostrai Jesus Bendito o fruto do Vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, Ó doce sempre Virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, P’ra que sejamos digno das promessas de Cristo. Das promessas de Cristo; Ámen! Jesus! Ámen, Jesus! Maria! José! 15.Sois Mãe de ternura, sem Vós que seria. Destes Vossos filhos, ó Santa Maria. Ref: Alegra-te ó mundo, bendiz o Senhor Que em breve há-de vir o Deus Redentor! (bis) Refulgiu ao mundo a Rainha dos céus, Alegria de todos: Mãe sois de Deus. Todos são felizes os que esperam em Vós, Advogada nossa, rogai por nós. Atendei, Senhora os nossos clamores, Pois sois esperança de nós pecadores. 16 - Virgem do Parto Ref: Virgem do Parto, ó Maria, Senhora da Conceição, Dai-nos as Festas felizes, a paz e a salvação. Senhora, Virgem do Parto, que nesse altar estais; Atendei-nos, carinhosa, os filhos que tanto amais. Louvada sejais, Senhora, e a Vossa Conceição: Vós sois a Mãe protetora da portuguesa nação. Rainha, Mãe Amorosa, que no Vosso altar estais, Atendendo carinhosa os filhos que tanto amais. Dai-nos festas muito felizes, alegria, amor, unção, Conservando nossas almas no Teu meigo coração.
  • Origem/Historial: A 25 de Dezembro, comemora-se o dia de Natal. Esta palavra significa nascimento e festeja-se a data de nascimento do Menino Jesus. No início do Cristianismo não era costume comemorar o Natal, porque, para os primitivos cristãos, era inconcebível celebrar o nascimento da própria pessoa, muito menos o natalício de Cristo. Davam mais importância ao dia da Sua morte, do que ao dia do Seu nascimento. Também consideravam-no um costume pagão, pois eram muitos os povos que celebravam, nesta data, o Solstício de Inverno, a festa do Deus Sol, com cerimónias mágico-religiosas, ritos de passagem e de purificação, que poderiam durar vários meses, com vista a renovar a vegetação. O sol é um elemento primordial nas sociedades agrícolas, e por isso a adaptação do calendário solar, surge como uma tentativa de organizar os diversos acontecimentos agrários sazonais: a sementeira, o nascimento, a maturação e a colheita. As festas pagãs das Saturnálias estavam muito arraigadas nos costumes populares. O Papa, aproveitou a fé e as superstições do povo, substituiu esta festa pagã, e começaram a comemorar o Natal nesta data, uma vez que Cristo simboliza para os cristãos, a Luz e o Sol. Deste processo de sobreposição, resultou a absorção das anteriores práticas pagãs e, hoje, algumas delas estão integradas em símbolos e ritos do Natal cristão. No início não havia unanimidade na data. Os primeiros vestígios desta festa, são encontrados no Egipto, realizados a 20 de Maio. No Oriente, a data era festejada a 6 de Janeiro, dia este celebrado, como festa da Epifania porque os cristão orientais não concordavam que se festejasse o Natal na mesma altura da festa do deus sol. No século 4 o Papa Júlio I, após uma investigação, chegou à conclusão que, o nascimento do Menino Jesus ocorreu a 25 de Dezembro, e passou a ser a festa do “Dies Natalis Domini”, por decreto. Esta data, não foi respeitada no Oriente, continuando-se por muito tempo, a festeja-la a 6 de Janeiro. A partir do séc. V, por decreto do Imperador Justiniano, a data 25 de Dezembro, é considerada universal. No século VII, no fim do tempo do Advento, surgiram as sete Antífonas Maiores, popularmente conhecidas por “Antífonas do Ó”. Devem ter sido compostas em Roma e depois espalharam-se por toda a Europa. São atribuídas a São Gregório Magno e cantam-se de 17 a 23 de Dezembro. A partir do século XI São Bernardo lança o alicerce para o nascimento de uma nova espiritualidade que vai dar realce à humanidade de Cristo e foi um impulsionador da devoção mariana. Ele e São Francisco de Assis são os grandes percursores das festas populares do Natal. Em Portugal existe o culto da Nossa Senhora da Expectação ou do Ó, celebrada pela igreja a 17 de Dezembro. Esta invocação pretende preparar os fiéis para o nascimento de Jesus. Foi Santo Ildefonso, muito devoto de Nossa Senhora, quem lhe deu o nome de Senhora da Expectação, depois de o X concílio de Toledo, realizado no ano de 656, ter determinado que na Espanha se celebrasse com toda a solenidade, a 18 de Dezembro, a festa que recorda as ânsias e votos de Maria ao ver aproximar-se o momento do sagrado parto. Chama-se também à Nossa Senhora da Expectação, Senhora do Ó, por causa dos grandes desejos que a Igreja mostra durante os oito dias que antecedem o Natal e votos ardentes que faz pela vinda do Salvador, mediante as antífonas que começam pela letra “Ó”: Ó sabedoria…vinde ensinar-nos o caminho da salvação; Ó chefe da Casa de Israel… vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço; Ó Rebento da Raiz de Jessé…vinde libertar-nos, não tardei mais; Ó Chave da Casa de David…vinde libertar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte; Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol da justiça, vinde iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte; Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja…vinde salvar o homem que formastes do pó da terra; Ó Emanuel…vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus. Em Portugal, o seu culto parece ter começado em Torres Novas, quando na igreja de Santa Maria do Castelo foi colocado um precioso ícone gótico do século XV, representando a Santíssima Virgem prestes a dar à luz. A Virgem repousa serenamente a mão esquerda sobre o ventre, manifestando adiantado grau de gravidez. É parecida com outras imagens da Expectação, do século XIII, que foram proibidas na Contra-Reforma. No entanto, Gregório XIII (1572-1585) aprovou a festa de Expectação de Nossa Senhora, que ainda hoje se celebra com grande solenidade em muitas igrejas. Muitas destas imagens foram retiradas das igrejas ou foram alteradas deixando de aparecer com a mão sobre o ventre e em muitas foi-lhes acrescentado o Menino. O culto da Senhora do Ó, a partir da Contra-Reforma, nos séculos XVII e XVIII, associa-se ao da Senhora do Rosário e ao culto da Imaculada Conceição, cuja festa se celebra a 8 de Dezembro, início do período natalício. É devido a esta fusão, que nas “missas do parto” se reza o terço e verifica-se um grande número de cânticos invocando a Nossa Senhora da Conceição. As origens históricas das “Novenas do Menino Jesus”, que deram origem às “missa do parto”, são incertas, mas foram divulgados pelos padres franciscanos. Estes introduziram a tradição litúrgica das missas do parto na Madeira, que é um elemento distintivo do natal desta terra. Segundo Eduardo Franco já no século XVII, o Padre António Vieira proferiu um sermão dedicado a “Nossa Senhora do Ô” que constitui uma das mais célebres e belas peças dos vastos volumes da sua parenética. O sermão foi pregado na igreja de Nossa Senhora da Ajuda da Baía, no ano de 1640. É um sermão de louvor, rico em pensamento e imagens sublimes proferido para assinalar uma festa importante na capital da sociedade colonial brasileira. A homilia é ao mesmo tempo reveladora de que aquela devoção mariana resulta de uma tradição que os portugueses levaram para as terras descobertas. Portanto, estamos perante uma tradição de origem medieval. Segundo João Arnaldo Rufino da Silva, é no Norte de Portugal que começam a aparecer pequenas publicações de novenas do Menino Jesus, como preparação para o nascimento de Cristo. Incluíam celebrações sobre a invocação ao Divino Espírito Santo, Ladainha de Nossa Senhora, Antífonas, Jaculatórias ao Menino Jesus e meditação que incidia sobre o nascimento de Jesus. Tradicionalmente realizavam-se de 16 a 24 de Dezembro. Estas novenas deram, mais tarde, origem às Missas do Parto. Esta tradição comemora os meses de gravidez de Nossa Senhora, na figura de Nossa Senhora do Ó, pois o povo associou a letra O com o estado do ventre de Nossa Senhora. Na Madeira esta imagem denomina-se Virgem do Parto. É com a primeira missa do que começa o advento popular do Natal madeirense. Em 353, o Papa Libério instituiu oficialmente, em Roma, a festa do Nascimento em 25 de Dezembro, pois inicialmente não se festejava o nascimento de Cristo. Toda a liturgia estava concentrada à volta da ressurreição de Cristo, pois a Páscoa era considerada a festa das festas. Em 506, o Concílio de Agde faz do Natal uma festa obrigatória para toda a cristandade.

Bibliografia

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  • DUARTE, Pe. José da Cunha. Natal no Algarve - Raízes Medievais, Edições Colibri, Lisboa, 2002
  • IDEM Algarve. Presépio tradicional, In Revista Vilas e Cidades, Ano V, Nº 49, Dezembro 2000
  • FERREIRA, Padre Manuel Juvenal Pita; O Natal na Madeira: Estudo Folcórico. 2ª Ed., Funchal: Secretaria Regional do Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1999
  • FRANCO, José Eduardo "O Natal madeirense e a condição insular" MACHINA MUNDI II Série, Nº 3 Dezembro de 2011 CLEPUL ISNN - 2182 - 169
  • GOMES Libânia Arminda Henriques; As "Missas do Parto" na Ilha da Madeira, uma tradição a preservar; Serviço de Publicações, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Funchal 2014
  • NASCIMENTO, João Cabral ; O Natal de há trinta anos. Das Artes e da História da Madeira, Funchal, Nº 4, 1950
  • PEREIRA, Eduardo C.N., Ilhas de Zargo Vol. I e II, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1967
  • PESTANA, Eduardo Antonino; Ilha da Madeira II Estudos Madeirenses, Funchal, Edição da Câmara Municipal do Funchal, 1970
  • PESTANA, Antonino; O Natal madeirense num auto de Gil Vicente. Das Artes e da História da Madeira, Funchal, 1957
  • SARMENTO Alberto Artur; O Natal na Madeira. Quando eu era estudante. Revista das Artes e da História da Madeira; Novembro-Dezembro, Vol, 11, Nº 9, Ano 1951
  • SILVA, João Arnaldo Rufino da; Cânticos Religiosos do Natal Madeirense, Funchal, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1998
  • VIRÍSSIMO, Nelson; Natal Madeirense, Povos e Cultura: CEPCEP, ISSN 0873 - 5921, Nº 11, 2007

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