Caracterização: O presépio ou "lapinha" é a representação do nascimento do Menino Jesus.
No nosso arquipélago existem dois tipos de presépios tradicionais: a "escadinha" e a "rochinha", este último baseado na orografia da ilha da Madeira.
Os presépios de rochinha populares, são armadas em cenários de maiores dimensões, compondo uma paisagem à imagem da ilha, desdobrada em socalcos montanhosos, semeados de vegetação e cortados por linhas de água, onde se distribuíam, em pacífica e alegre convivência, personagens de episódios bíblicos e figuras do quotidiano regional, que convergiam para a gruta onde se acolhia a Sagrada Família, núcleo central de toda a composição.
Na conceção deste, o povo utilizava os recursos naturais disponíveis, nomeadamente rocha piroclástica, popularmente conhecida por feijoco, socas de cana vieira ou vimieiro, ou papel pintado, procurando recriar a orografia da ilha.
A dimensão destes presépios varia, ocupando por vezes todo o espaço de uma das dependências da unidade doméstica. Quando se trata deste tipo de presépios de grandes dimensões é costume forrarem-se as paredes desse quarto com papel ou outro material, de cor azul, simulando-se o céu.
No alto da rochinha, usualmente no centro, é colocada a figura do Menino Jesus, numa peanha.
No centro, é formada uma gruta, onde são colocadas as figuras da Sagrada Família, o burro e a vaca. Em volta da mesma, ou a caminho desta, são colocados os Reis Magos.
Para além dos montes e socalcos, constroem-se caminhos, utilizando-se farelo, musgo ou outros materiais.
Espalhadas por todos os terrenos, são colocadas casas e algumas igrejas, construídas com cartão.
Simulam-se os cursos de água, com algodão, pequenos fragmentos de vidro ou através de habilidosos mecanismos, que permitem colocar água a correr, representando-se as levadas e as quedas de água.
O relato místico e profano é complementado, com os chamados pastorinhos. Trata-se de figurado em barro, usualmente de reduzidas dimensões, representando figuras religiosas, que compõem as cenas da vida de Cristo e figuras inspiradas nas profissões tradicionais, com as quais se encena o quotidiano da ilha.
Na armação do presépio, utilizava-se, muitas vezes, ramagem verde para ornamentar o espaço em volta ou, depois da introdução da chamada "árvore do Natal" nas casas madeirenses, era comum, especialmente nas zonas rurais, montar-se a rochinha sob um pinheiro bravo (Pinus pinaster), ou ornamentá-lo com ramagens daquela árvore, a qual era decorada com recortes em papel e, posteriormente com "espiguilhas". Por vezes penduravam-se balões.
Origem/Historial: O presépio, palavra de origem latina, (praesepium) significa manjedoura, curral, estrebaria ou, cocheira.
A veneração do nascimento de Jesus, data do séc. III, com as peregrinações à gruta de Belém, onde se diz este ter ocorrido. No entanto este acontecimento só é representado desde o séc. IV
Segundo parece, a primeira réplica da gruta foi criada em Roma, na Basílica Liberiana, dita Santa Maria Maggiore. Acredita-se que tinha como relíquias, fragmentos de rochas e madeiras, que se dizia serem da gruta e da manjedoura de Belém .
A primeira representação conhecida da Virgem Maria com o Menino, remonta, ao ano de 380 e foi descoberta em Roma, nas catacumbas de São Sebastião, a decorar uma parede da sala mortuária de uma família cristã. O Menino está deitado numa mesa do qual vê-se o burro e o boi.
A tradição de se montar um presépio, fora da igreja, remonta ao século XIII, mais precisamente a 1223, quando São Francisco fez uma reconstituição humanizada do presépio, nos campos de Greccio, no Vale de Rieti, próximo de Assis.
É com este presépio de tamanho real que a representação do nascimento de Jesus sai dos altares das igrejas, para entrar todos os anos nas casas dos homens, aproximando Deus do homem simples.
O objetivo de São Francisco, era deslocar a adoração dos fiéis do espaço rico das igrejas, mais adequado que à Fé, para a atmosfera sem artifícios da Natureza, lembrando a comunhão e a promessa simbolizados por Jesus nessa data.
São Francisco defendia uma religião humanitária, mais próxima do homem simples, defendendo a passagem do ofício em latim para a linguagem corrente e o uso da representação como um meio de divulgar a fé, na qual o presépio de Greccio era um exemplo.
Segundo parece, Santa Clara, contemporânea e amiga deste, difundiu o presépio pelos conventos e por outras ordens religiosas.
Outras no entanto, defendem que o presépio é inspirado nas representações dos mistérios, dos princípios da Idade Média.
O presépio foi introduzido em Portugal, por influência dos Franciscanos, após o casamento de D. Dinis com a rainha Santa Isabel.
Os primeiros presépios eram imagens esculpidas, painéis estáticos, formando um conjunto, e pinturas. O modelo, com figuras articuladas e independentes umas das outras, foi desenvolvido em Itália no século XV ou XVI e popularizado nos países católicos durante o século XVII. As imagens podiam ter as suas posições modificadas, podiam-se montar cenas diferentes, o seu número dependia do espaço e eram montadas fora das igrejas, em cenas artificiais, com paisagens ilusórias.
Outras eram realizadas à escala miniatural e abrigavam-se em caixas envidraçadas. Estes oratórios apareceram a partir do séc. XVII.
Os elementos e imagens que compõem estes presépios, eram arranjados e esculpidos em miolo de pão, barro, papel, cera, cartão, miolo de cana e outros materiais, por estarem mais à mão do artista. Datam as mais ricas e importantes de meados do séc. XVIII, e provinham, quase sempre, dos conventos, onde as freiras, exerciam assim, a sua devoção, e pagavam alguma favorança, à casa de fidalgo protetor ou a familiar de alguém que administrasse os bens do convento.
No século XVIII, o hábito de armar presépios, recebeu um grande impulso, com Carlos III de Nápoles, ao armar no seu palácio um enorme presépio, com imagens em madeira e barro, sendo este visitado e copiado pelos seus súbitos.
No século XVIII, os conventos da Provença, França, passaram a elaborar imagens do Menino Jesus em cera, que se espalharam pela Europa. Na quadra natalícia, a imagem do Menino era colocada em cima do altar decorado com cearas e laranjas.
Com a Revolução Francesa surgiu um presépio com figuras populares, os santons, de cores berrantes, figuras produzidas na Provença, que representavam as classes sociais e pessoas típicas da época. Este novo presépio foi adotado pelo povo e espalhou-se por todo o mundo.
Montado num canto da sala ou numa mesa, o presépio é, normalmente, constituído pelas seguintes figuras: Sagrada Família, a gruta de Belém, o Anjo, os Reis Magos, os pastores, com as ovelhas, o galo, o burro e o boi. Estes dois últimos, são o símbolo da humildade, força, paciência e trabalho, qualidades que Jesus pregou aos homens.
Os Reis Magos, aparecem pela primeira vez num presépio, em Florença, na época dos Médicis. A palavra mago, vem do grego mágoi, que significa “os homens que estudam as estrelas”. Segundo parece, estes eram astrólogos.
Segundo a tradição cristã, estes levaram presentes ao Menino Jesus: incenso, mirra e ouro. O incenso simboliza o reconhecimento da divindade, a mirra as perseguições que ele sofreria no futuro e o ouro simboliza a realeza.
No século IX, os Reis Magos adquiriram nome: Baltazar, Gaspar e Belchior.
Na Idade Média, Baltazar era representado no lombo de um elefante, Gaspar sobre um camelo e Belchior num cavalo, representando os povos conhecidos, africanos, asiáticos e europeus.
Na Madeira designa-se o presépio de lapinha, porque vulgarmente designa a lapa de Belém onde é figurado o nascimento do Menino Jesus.
As chamadas rochinhas madeirenses eram, inicialmente, realizadas à escala miniatural e abrigavam-se em caixas envidraçadas, mais comum nas casas mais abastadas.
Bibliografia
CARVALHEIRA, P. José do Vale, Nossa Senhora na História e Devoção do Povo Português, Edições Salesianas, 1988
DUARTE, Pe. José da Cunha. Natal no Algarve - Raízes Medievais, Edições Colibri, Lisboa, 2002
IDEM Algarve. Presépio tradicional, In Revista Vilas e Cidades, Ano V, Nº 49, Dezembro 2000