Caracterização: Na Ilha da Madeira existem vários tipos de cestos confecionados com as mais diversas matérias-primas e com as mais variadas morfologias, adaptadas às diferentes finalidades a que se destinam.
Os cestos de “urze verde”, outrora muito usuais, graças ao sábio aproveitamento popular desta abundante matéria-prima, foram aos poucos caindo em desuso, até ao seu total desaparecimento.
A urze utilizada era colhida nos meses de inverno, quando estava “macia” e maleável para ser trabalhada.
Para a confeção do cesto, o artesão escolhe os melhores galhos de urze e começa pela base circular, enrolando os galhos que são presos com liaça (fita de vime).
Depois da base atingir o diâmetro pretendido, esta é fixa num molde, semicircular, que dará forma ao cesto.
Para a construção das paredes do cesto, vai acrescentando pequenos galhos à volta do molde, unindo-os e prendendo-os bem com as fitas de “liaça” colocadas desde a base.
Para fazer passar as fitas de “liaça” através das paredes do cesto, utiliza um furador e ao atingir a altura pretendida para as paredes, prende as fitas no bordo. Para terminar, apara as pontas soltas de urze, com o auxílio de um podão.
Devido à sua durabilidade e resistência, a madeira de urze é utilizada na confeção de diversos artefactos.
Com ela se faziam os cajados, com os quais os leiteiros transportavam as bilhas do leite, para venda ao domicílio, era utilizada na confeção de mobiliário, nomeadamente bancas de três pés e bancos de jardim, constituía uma das madeiras indígenas utilizadas nas obras de embutidos e era utilizada na construção de instrumentos musicais, nomeadamente as “castanholas da Tabua”. Com esta matéria-prima também se confecionavam brinquedos, como é o caso do pião.
A lenha da madeira de urze é conhecida por fazer uma brasa viva e duradora, sendo muito utlizada para assar a típica espetada madeirense e nos fornos a lenha, para cozer o pão, operação na qual é necessária uma temperatura elevada e duradoura.
Ao longo dos séculos, esta madeira permitiu ao homem várias utilizações, com maior incidência na produção de alfaias agrícolas e nos trabalhos do campo.
Com a madeira de urze fazem-se cabos para enxadas, cabos para a chamada “mão da pia”, utilizada para malhar o trigo, ou ganchos para pendurar baldes e cestos durante as colheitas. É ainda utilizada na construção das “latadas” (suportes) da vinha.
Os paus de urze eram também colocados, na posição vertical, nas “mesas” dos “carros chiões”, utilizados no transporte de carga, evitando que a erva, lenha ou produtos agrícolas caíssem.
Os galhos de urze, são ainda utilizados na construção de vedações, nas zonas mais costeiras da Ilha da Madeira, o chamado mato bardo. Cortados com mais ou menos a mesma altura, são fixados, na vertical, na beira das “paredes” (muros), para proteger a vinha e outras culturas, da erosão do vento e da maresia.
Na toponímia podemos encontrar várias referências a esta planta, nomeadamente o Lombo do Urzal, um sítio localizado na freguesia da Boaventura, concelho de São Vicente ou o Pico da Urze, no planalto do Paul de Serra.
Esta espécie apresenta várias utilizações na medicina tradicional. Os flavonoides presentes na sua composição têm uma acção anti-inflamatória, calmante e antialérgica e a presença de taninos ajuda na regeneração de tecidos.
O mel de urze, confecionado com o pólen extraído pelas abelhas, da flor desta planta é também muito rico.
No norte da Ilha da Madeira, podemos encontrar a maior mancha de urze, ocupando grande parte da Laurissilva. A sua presença é de elevada importância na sustentação dos recursos hídricos da ilha, devido ao seu papel na captura da água dos nevoeiros, fenómeno também conhecido como “precipitação oculta”.
Origem/Historial: Sendo a ilha da Madeira muito rica em recursos naturais, o homem recorreu, desde o início da sua ocupação, à utilização de algumas matérias-primas, fornecidas pelo meio, para fazer face às suas necessidades prementes e confecionar peças utilitárias.
São vários os processos de confeção de diferentes artefactos, confecionados com madeira de urze, uma espécie endémica cuja madeira é muito resistente e duradoura. Com esta matéria-prima os artesãos confecionam cestaria, utensílios relacionados com a faina agrícola ou utensílios domésticos
Com a urze constroem-se ainda as tradicionais varandas, ou as estruturas designadas popularmente por mato bardo, ou seja, as sebes que, nas zonas costeiras, protegem a vinha e as culturas, do vento e da maresia.
Algumas referências na nossa toponímia são testemunhos da importância desta planta e da sua presença no arquipélago. Esta espécie possui também algumas propriedades medicinais.
Bibliografia
CAMARA, Teresa Brasão; "Os objectos criados pelo homem, uma necessidade ou deleite" In Revista Xarabanda, Nº 10, 1996
SILVA, Fernando Augusto e MENEZES, Carlos Azevedo: Elucidiário Madeirense, Vol . 3, 1998
VASCONCELOS, Agostinho; "A giesta e as obras de verga", In Revista Xrabanda, Nº 7, 1995
Exposições
Acesso Às Coleções em Reserva: Artefactos em urze
Museu Etnográfico da Madeira
22/1/2019 a 20/7/2019
Exposição Física
Multimédia
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enrola os galhos que são presos com liaça (fita de vime) para dar a forma circular.JPG
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