Ficha de Inventário

Bolo de noiva

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2020/83
  • Categoria: Cozinha, alimentação e estimulantes
  • Datação: 2018
  • Contexto Territorial: Sítio do Vale
  • Caracterização: Para a confeção dos bolos, a artífice começa por acender o forno a lenha e corta as folhas de bananeira, em superfícies retangulares com a mesma dimensão, as quais irão servir de base para os bolos, durante a cozedura. Nas zonas mais serranas da ilha, o povo usava folhas de couve na cozedura dos bolos e do pão, por serem mais abundantes, enquanto nas zonas mais costeiras, era mais comum utilizarem as folhas de bananeira. À receita original, Arlete Santos acrescentou as passas e miolo de noz picada, dando o seu cunho pessoal. Devido a problemas de saúde, sentiu a necessidade de adquirir recentemente uma batedeira elétrica, de pequenas dimensões, como forma de agilizar o processo para amassar a massa. No recipiente da batedeira junta a mistura de especiarias (cravinho, noz moscada e pimenta moídas, caril e erva doce), miolo de noz, água quente, margarina, açúcar, raspas de limão, fermento de padeiro e farinha de trigo e coloca tudo a “mexer”. Uma vez “mexida” (batida) a massa, coloca-a num alguidar de barro para levedar, estende as mãos, horizontalmente, na posição de orar e vinca uma cruz na massa, proferindo a frase “em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo”, pedindo uma bênção divina para que seja “acrescentada” a massa. Depois de levedada, retiram a massa do alguidar, dão-lhe duas voltas, passam-na por farinha e cortam-na aos bocados, os quais são pesados, para que os bolos fiquem uniformes. Começa a tendê-los, moldando-os com as mãos e fornecendo-lhes a forma arredondada e polvilha-os com farinha, de forma a evitar que a massa pregue nas mãos. Os bolos ficam na mesa a levedar durante mais algum tempo. Enquanto isso, o filho retira as brasas do forno e varre a cinza. Finalmente, introduzem os bolos no forno. Para cada bolo é colocado na pá uma folha de bananeira, que serve-lhe de base. Uma vez introduzidos no forno, os bolos ficam a cozer durante cerca de 45 minutos a uma temperatura de 200graus. Após esse tempo abrem a porta do forno para entrar ar fresco e ficam em repouso cerca de 10 minutos. Depois, retiram os bolos e colocam-nos em cima de uma mesa para arrefecerem. Depois, derretem margarina numa frigideira e pincelam os bolos, com o objetivo de os tornar mais vistosos e apetecíveis. Antigamente, quando as pessoas não tinham possibilidades de comprar a pimenta moída e a erva-doce, ferviam as pimentas da terra e flor do funcho e adicionavam a água fervida à massa, como referiu a artífice. Receita do Bolo de noiva para 5kg de farinha - 5kg de farinha de trigo - 2kg de açúcar - ½ De margarina - 250 Gr de fermento - 2 Colheres de sopa de erva-doce moída - 2 Colheres de canela avulso - 1 Colher de caril avulso - ½ Colher de pimenta moída - ½ Colher de noz-moscada - Uma grafada de nozes picadas - Uma grafada de passas
  • Origem/Historial: Desde a pré-história que se consome trigo, servindo este cereal para preparar pão e bolos, sendo também muito antiga a tradição de oferecer bolos em datas especiais, símbolos de prosperidade e fertilidade. Na Roma Antiga era costume fazerem oferendas de determinados ingredientes aos Deuses (frutos secos, nozes e mel), os quais eram também incorporados num bolo, que nas festas nupciais era esfarelado na cabeça dos noivos, para que os deuses trouxessem prosperidade, sorte e felicidade. Estes bolos poderão estar na origem do costume do “bolo de noiva” e do “bolo de casamento”, que chegaram até os nossos dias. Mais recentemente, em Inglaterra, na época de Elizabete I, era comum confecionarem-se pequenos bolos doces para as festas de casamento. As sobras dos convidados eram reunidas numa mesa, para um ritual simbólico de apelo à fertilidade, no qual os noivos se beijavam por cima destas, acreditando-se que ficariam abençoados. O tradicional “bolo de noiva”, também designado por “bolo da serra”, ou “bolo doce” é conhecido em toda a ilha, embora a sua origem seja incerta. Eduardo C. N. Pereira, na sua obra “Ilhas de Zargo”, após uma referência ao bolo de mel, faz alusão a estes bolos, dizendo que “ que as populações rurais fabricam outro bolo de farinha de trigo da terra, ovos, açúcar, manteiga e erva-doce, o popular Bolo de Noivo, privativo de festas religiosas e familiares.” Várias referências comprovam a sua presença em diferentes festividades. O Grupo de Folclore do Rochão fala da presença deste bolo na quadra festiva do Natal, designando-o de “pão doce” e referindo que “este pão só era comido de festa a festa”. No entanto, várias são as fontes bibliográficas que fazem referência a estes bolos, de confeção simples, como sendo oferecidos nos casamentos. Simbolizariam a abundância, a partilha e a alegria, que os noivos desejavam para a sua vida. Segundo consta, os convidados recebiam esta oferenda no final do casamento, na passagem do cortejo ou na boda, como forma de agradecimento pela sua presença. António Marques da Silva faz referência a esta oferenda no Norte da ilha: “ (…) quando os noivos regressam da igreja, depois já da indissolubilidade do nó, os curiosos e amigos vêm assistir à passagem do cortejo, para o qual se levantaram arcos floridos e passadeiras (tapetes) de flores. Nesta altura os noivos retribuem com sorrisos, agradecimentos e um bolo de noiva.” Eduardo C. N. Pereira faz também referência à sua presença nos casamentos, em diferentes concelhos da ilha e entregues em diferentes ocasiões: “Entre os camponeses das aldeias de Oeste e Norte da Madeira, as oferendas de casamento têm lugar após a cerimónia religiosa. A população aguarda os desposados à beira do caminho, atirando-lhes flores à mistura com trigo, que nas povoações do sul é substituído por arroz, símbolo de abundância com que se faz votos pela vida do novo casal (…). Nos Canhas, os desposados, a quem os cumprimenta ou obsequeia durante o cortejo, oferecem agulhetas, cigarros, charutos ou convites para a boda; em Santana bolos doces, biscoitos e flores de laranjeira; no Porto Moniz, em troca de oferendas de trigo que recebem pelo caminho, distribuem alfinetes, uma das mais antigas lembranças de casamento em usos na Madeira (…). Além de alfinetes também oferecem bolos de farinha adocicados, um ou dois dias antes do casamento, aos que hão-se presenteá-los, na via pública, após o desposório. No fim do banquete nupcial percorre a mesa uma bandeja a recolher dinheiro dos convivas para os nubentes, o que é retribuído com um bolo a cada um. Igual acolhimento têm os recém-casados na Serra de Água, retribuindo com bolos e doces os obséquios de parentes e amigos. Também é contemplado com um bolo, à porta principal da igreja, ao despedir-se dos nubentes, o pároco da freguesia. Na Fajã da Ovelha precede o cortejo nupcial, no regresso do templo, um homem com foguetes para queimar diante de todos os casais que brindarem os desposados, onde deixa um bolo feito de farinha de trigo, ovos, açúcar erva-doce.” Maria Elisa de França Brazão, na sua obra “Namoro, noivado e casamento – Lombo do Atouguia” , relembra que “em épocas mais recuadas, há cerca de 70 anos, as lembranças de casamento eram feitas em dinheiro que cada convidado colocava debaixo do prato à hora da última refeição. A cada um dos convivas era oferecido, à noite, um bolo de noiva que geralmente era guardado na algibeira do casaco.” Nesta sua obra sobre estes rituais de passagem, fala mesmo da presença obrigatória dos bolos de noiva na festa do casamento. Segunda a autora, “preparam-se nas vésperas, pois frescos, são mais saborosos (…) ”. Como refere, “para uma cerimónia de casamento preparam-se várias amassaduras. São necessários vários ingredientes. 12 quilos de farinha, 3 quilos de açúcar, 150 gramas de fermento inglês, casca de limão, pimenta da terra, canela em pau, pimenta moída e meio quilo de margarina, aproximadamente”. Embora os ingredientes de base sejam os mesmos, alguns ingredientes utilizados neste bolo, parecem variar ao longo do tempo, nos diferentes concelhos. O processo de fabrico descrito pela autora é em quase tudo semelhante ao processo recolhido atualmente, durante o trabalho de campo, sendo de referir alguns pormenores específicos interessantes, nomeadamente a referência da autora ao facto de os bolos serem cozidos no forno “ (…) sobre uma folha de novelos , cujas nervuras se imprimem no fundo do bolo (…) ” ou o pormenor da manteiga ser aplicada nos bolos já prontos, com uma “maçaneta de pano”.

Exposições

  • Gastronomia tradicional: o bolo de noiva

    • Museu Etnográfico da Madeira
    • 16/1/2018 a 17/6/2018
    • Exposição Física

Multimédia

  • bolos cozidos.JPG

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  • acende o forno.JPG

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  • mistura de especiarias.JPG

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  • acrescenta farinha à massa.JPG

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  • vinca uma cruz com as mãos e ora uma oração para que a massa seja acrescentada.JPG

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  • massa a levedar no alguidar de barro.JPG

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  • corta a massa em pequenas porções.JPG

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  • pesa a massa.JPG

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  • molda os bolos dando uma forma arredondada.JPG

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  • forno aceso para a cozedura dos bolos.JPG

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  • varre as cinzas do forno.JPG

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  • introduz os bolos no forno.JPG

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  • pincela os bolos com margarina.JPG

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