Ficha de Inventário

Festa do Espírito Santo

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2016/14
  • Categoria: Festividades Cíclicas
  • Contexto Territorial: Camacha, Santa Cruz
  • Caracterização: Festa religiosa consagrada ao Espírito Santo, representado por um pendão, a bandeira do Espírito Santo e uma salva. Na Camacha, a partir do Domingo de Páscoa até ao quinquagésimo dia depois da Páscoa, (Domingo do Pentecostes), é costume aos Domingos e dias santos realizarem-se, em cada sítio, as visitas do Espírito Santo aos domicílios e o último Domingo aos estabelecimentos. Esta visita é constituída por membros da Confraria do Santíssimo Sacramento, os festeiros (mordomos), envoltos numa capa de seda vermelha, a opa, que transportam o pendão, a bandeira do Espírito Santo, uma salva para recolha das ofertas, que entregam à Igreja e à Comissão de Festas . Por vezes as insígnias são beijadas à entrada e saída. São ainda acompanhados por meninas, as saloias, que cantam e transportam uma cesta e por tocadores. A visita do Espírito Santo serve como pretexto para reunir a família num ambiente festivo. A casa está decorada para o receber e aí transmitir a bênção, que se acredita que é eficaz e protetora durante todo o ano. Depois das visitas do Espírito Santo às casas da freguesia, no último fim-de-semana e Segunda-feira de Pentecostes realiza-se um arraial, com barracas de comes e bebes e animação musical. Ao fim da tarde de Domingo, realiza-se o Cortejo do Pão, com início na Quinta da Arema, sítio dos Casais de Além até à Igreja Paroquial, percorrendo as principais ruas da vila. Transportam pães e produtos em cestos, encimados por pendões e bandeirinhas, símbolo do Espírito Santo e que são expostos na copa, para depois serem distribuídos pelos mais pobres. É só comido algum pedaço deste pão no caso de haver algum doente em casa, ou são queimados algumas lascas e lançadas ao vento para acalmar uma tempestade inesperada Atualmente na Camacha, tal como noutras partes de Portugal, o “bodo” deixou de ser uma refeição que o Imperador oferecia a doze pobres e passou a ser um abundante almoço. É realizado na Segunda-feira normalmente na sua casa, para os Irmãos da Confraria, antigos imperadores, os mordomos, os membros da Comissão de Festas, o padre, as entidades, a banda, a família e inúmeros convidados. A partir das 20 horas, no Largo da Achada, tem lugar a cerimónia da eleição/nomeação do novo “Imperador” ou “Imperatriz”. Os vários candidatos tiram um papel de um saco, cabendo ao que tirar o papel com uma pomba do Espírito Santo, ser o novo “Imperador”. Em seguida acuam vários grupos de folclore.
  • Origem/Historial: No arquipélago da Madeira, tal como no resto do país, em todas as paróquias celebram-se festas religiosas, as quais são consagradas a Deus, ao Espírito Santo, a Nossa Senhora e aos santos e santas, representados por uma relíquia – fragmento ou objecto – ou por uma imagem. Estas festas têm usualmente a sua origem na crença do povo em lendas populares ou foram introduzidas pelos primeiros colonizadores, que trouxeram consigo os seus santos detentores de poderes milagrosos, tornando-os protetores de determinadas localidades. A sua História, no entanto, reporta-se a tempos muito remotos, a cultos ancestrais e a crenças anteriores ao cristianismo, que se mantiveram apesar das normas oficiais religiosas as terem adaptado e transformado. A construção dos primeiros templos religiosos teve lugar, muitas vezes, na proximidade de antigos santuários pagãos e algumas lendas estão associadas implícita ou explicitamente a antigas divindades. Parece existir efectivamente uma continuidade entre o dinamismo popular que se exprime nestas festas eligiosas que precederam o cristianismo. A localização dos santuários junto dos antigos lugares de culto, as lendas dos santos – e o seu culto – associadas aos elementos naturais (rochedos, mar, fontes, árvores), a permanência de certos itinerários ou gestos rituais, a intensidade do sentimento da natureza que leva o romeiro a ver a sede do sagrado mais na globalidade de um sítio, cuja harmonia aprecia e celebra, do que nos limites estreitos do santuário, a tendência, historicamente atestada pela igreja, para celebrar “junto das árvores” e “no campo”, são elementos que nos obrigam a ler o comportamento dos romeiros em referência a gestos e sem dúvida a complexos rituais abolidos (SANCHIS, Arraial, 325). Estas festas realizam-se usualmente aos fins-de-semana e constituem um período de descanso, uma pausa no trabalho quotidiano. O Espírito Santo Santo, representa uma síntese de crenças pagãs, nomeadamente o mazdeísmo, do judaísmo, do cristianismo e de movimentos cristãos, tidos como hereges, como os gnósticos e os cátaros. O culto do Espírito Santo é realizado durante o Pentecostes, as sete semanas depois do Domingo de Páscoa. Em 1195 o abade cirtenciense Joaquim de Flora escreveu a obra “Expositio in Apocalypsum”. Defendia que eram três as idades em que se dividia a história da Humanidade: a Idade do Pai, ou seja Jeová, a Idade do Filha, a era cristã e a Idade do Espírito Santo que estava para chegar e que iria substituir a Igreja romana decadente e em crise, que ao longo dos séculos se afastara dos princípios pregados por Cristo, baseados na igualdade, simplicidade e pobreza. A expansão da festa do Espírito Santo surgiu num contexto de renovação da Igreja, considerada feudal e poderosa. É o resultado de um pensamento utópico e poético de um tempo de inocência, de liberdade, de paz e partilha dos bens pelos mais pobres. É também uma resistência ao poder político, ao poder económico e à autoridade e à riqueza da igreja. Com a “expansão marítima”, os portugueses espalharam o culto do Espírito Santo pelo mundo. Na Madeira, a introdução deste culto deve-se a João Gonçalves Zargo e Tristão Vaz Teixeira pois estes eram Cavaleiros da Ordem de Cristo, sucessores da Ordem dos Templários

Bibliografia

  • FERREIRA, César; Catálogo "Festas e Romarias da Madeira", Museu Etnográfico da Madeira, Ribeira Brava, Julho, 2006.
  • BARROS, Jorge e COSTA, Soledade Marinho, Festas e Tradições Portuguesas. Círculo de Leitores, Lisboa 2002.
  • BRAGA, Teófilo, O Povo português nos seus costumes, crenças e tradições, Vol. II, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986.
  • BRUCE-MITFORD, Miranda, O Livro Ilustrado dos Signos & Símbolos, Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, 1996.
  • CAILLOIS, Roger; O Homem e o Sagrado, Perspectivas do Homem/Edições 70, Lisboa 1988.
  • ELÍADE, Mírcea; O Mito do Eterno Retorno, Edições 70, Lisboa.
  • ELÍADE, Mírcea; Tratado de História das Religiões, Edições Cosmos.
  • ESPÍRITO SANTO, Moisés, Origem Orientais da Religião Popular Portuguesa, Assírio e Alvim, Lisboa, 1988.
  • LOPES, Aurélio, Subversões rituais de um Natal Solsticial, In Jornal do Folclore, Dezembro 1998.
  • LOPES, Aurélio, A face do caos, Ritos de subversão na tradição portuguesa, Publicações do autor e de Garrido Artes Gráficas, Lisboa, 2000.
  • MARTINS, Oliveira; Sistema dos mitos religiosos, Guimarães Editores, Lisboa, 1986.
  • NOGUEIRA, Odete L., Plantas & Flores. Histórias e Símbolos, Notícias Editorial, Lisboa, 2004.
  • OLIVEIRA, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.
  • PEREIRA, Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, Volume II, Câmara Municipal do Funchal, 1989.
  • PEREIRA, Júlio; Sabores. Receitas Tradicionais Madeirenses
  • SANCHIS, Pierre, Arraial: Festa de um povo. As romarias portuguesas. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983.
  • SANTOS Teresinha; Sabores da Ponta do Sol, Câmara Municipal da Ponta do Sol, 2007
  • SILVA, Padre Fernando Augusto; MENESES Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, Volume II, Funchal, 1998.
  • VISCONDE DO PORTO CRUZ, Crendices e Superstições do Arquipélago da Madeira, Edição do Autor, Funchal, 1954.
  • ESPÍRITO SANTO, Moisés; A Religião Popular Portuguesa. A Regra do Jogo, Edições Lda.

Exposições

  • Exposição

    • Fórum Madeira
    • 28/7/2006 a 31/8/2006
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Museu Etográfico da Madeira
    • 29/7/2006 a 10/9/2006
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Casa Paroquial de Santana
    • 28/11/2006 a 10/12/2006
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cultural John dos Passos
    • 12/12/2006 a 12/1/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico da Ponta do Pargo
    • 20/1/2007 a 28/2/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos
    • 9/4/2007 a 30/4/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico de Câmara de Lobos
    • 1/5/2007 a 13/5/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico de Machico
    • 9/10/2007 a 26/11/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico da Ilha
    • 2/12/2012 a 9/12/2012
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Aeroporto Internacional da Madeira
    • 20/8/2014 a 30/9/2014
    • Exposição Física

Multimédia

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