Caracterização: Festa religiosa consagrada ao Espírito Santo, representado por um pendão, a bandeira do Espírito Santo e uma salva.
Na Camacha, a partir do Domingo de Páscoa até ao quinquagésimo dia depois da Páscoa, (Domingo do Pentecostes), é costume aos Domingos e dias santos realizarem-se, em cada sítio, as visitas do Espírito Santo aos domicílios e o último Domingo aos estabelecimentos. Esta visita é constituída por membros da Confraria do Santíssimo Sacramento, os festeiros (mordomos), envoltos numa capa de seda vermelha, a opa, que transportam o pendão, a bandeira do Espírito Santo, uma salva para recolha das ofertas, que entregam à Igreja e à Comissão de Festas . Por vezes as insígnias são beijadas à entrada e saída. São ainda acompanhados por meninas, as saloias, que cantam e transportam uma cesta e por tocadores. A visita do Espírito Santo serve como pretexto para reunir a família num ambiente festivo. A casa está decorada para o receber e aí transmitir a bênção, que se acredita que é eficaz e protetora durante todo o ano.
Depois das visitas do Espírito Santo às casas da freguesia, no último fim-de-semana e Segunda-feira de Pentecostes realiza-se um arraial, com barracas de comes e bebes e animação musical.
Ao fim da tarde de Domingo, realiza-se o Cortejo do Pão, com início na Quinta da Arema, sítio dos Casais de Além até à Igreja Paroquial, percorrendo as principais ruas da vila. Transportam pães e produtos em cestos, encimados por pendões e bandeirinhas, símbolo do Espírito Santo e que são expostos na copa, para depois serem distribuídos pelos mais pobres. É só comido algum pedaço deste pão no caso de haver algum doente em casa, ou são queimados algumas lascas e lançadas ao vento para acalmar uma tempestade inesperada
Atualmente na Camacha, tal como noutras partes de Portugal, o “bodo” deixou de ser uma refeição que o Imperador oferecia a doze pobres e passou a ser um abundante almoço. É realizado na Segunda-feira normalmente na sua casa, para os Irmãos da Confraria, antigos imperadores, os mordomos, os membros da Comissão de Festas, o padre, as entidades, a banda, a família e inúmeros convidados.
A partir das 20 horas, no Largo da Achada, tem lugar a cerimónia da eleição/nomeação do novo “Imperador” ou “Imperatriz”. Os vários candidatos tiram um papel de um saco, cabendo ao que tirar o papel com uma pomba do Espírito Santo, ser o novo “Imperador”. Em seguida acuam vários grupos de folclore.
Origem/Historial: No arquipélago da Madeira, tal como no resto do país, em todas as paróquias celebram-se festas religiosas, as quais são consagradas a Deus, ao Espírito Santo, a Nossa Senhora e aos santos e santas, representados por uma relíquia – fragmento ou objecto – ou por uma imagem.
Estas festas têm usualmente a sua origem na crença do povo em lendas populares ou foram introduzidas pelos primeiros colonizadores, que trouxeram consigo os seus santos detentores de poderes milagrosos, tornando-os protetores de determinadas localidades.
A sua História, no entanto, reporta-se a tempos muito remotos, a cultos ancestrais e a crenças anteriores ao cristianismo, que se mantiveram apesar das normas oficiais religiosas as terem adaptado e transformado. A construção dos primeiros templos religiosos teve lugar, muitas vezes, na proximidade de antigos santuários pagãos e algumas lendas estão associadas implícita ou explicitamente a antigas divindades.
Parece existir efectivamente uma continuidade entre o dinamismo popular que se exprime nestas festas eligiosas que precederam o cristianismo. A localização dos santuários junto dos antigos lugares de culto, as lendas dos santos – e o seu culto – associadas aos elementos naturais (rochedos, mar, fontes, árvores), a permanência de certos itinerários ou gestos rituais, a intensidade do sentimento da natureza que leva o romeiro a ver a sede do sagrado mais na globalidade de um sítio, cuja harmonia aprecia e celebra, do que nos limites estreitos do santuário, a tendência, historicamente atestada pela igreja, para celebrar “junto das árvores” e “no campo”, são elementos que nos obrigam a ler o comportamento dos romeiros em referência a gestos e sem dúvida a complexos rituais abolidos (SANCHIS, Arraial, 325).
Estas festas realizam-se usualmente aos fins-de-semana e constituem um período de descanso, uma pausa no trabalho quotidiano.
O Espírito Santo Santo, representa uma síntese de crenças pagãs, nomeadamente o mazdeísmo, do judaísmo, do cristianismo e de movimentos cristãos, tidos como hereges, como os gnósticos e os cátaros.
O culto do Espírito Santo é realizado durante o Pentecostes, as sete semanas depois do Domingo de Páscoa.
Em 1195 o abade cirtenciense Joaquim de Flora escreveu a obra “Expositio in Apocalypsum”. Defendia que eram três as idades em que se dividia a história da Humanidade: a Idade do Pai, ou seja Jeová, a Idade do Filha, a era cristã e a Idade do Espírito Santo que estava para chegar e que iria substituir a Igreja romana decadente e em crise, que ao longo dos séculos se afastara dos princípios pregados por Cristo, baseados na igualdade, simplicidade e pobreza.
A expansão da festa do Espírito Santo surgiu num contexto de renovação da Igreja, considerada feudal e poderosa. É o resultado de um pensamento utópico e poético de um tempo de inocência, de liberdade, de paz e partilha dos bens pelos mais pobres. É também uma resistência ao poder político, ao poder económico e à autoridade e à riqueza da igreja.
Com a “expansão marítima”, os portugueses espalharam o culto do Espírito Santo pelo mundo. Na Madeira, a introdução deste culto deve-se a João Gonçalves Zargo e Tristão Vaz Teixeira pois estes eram Cavaleiros da Ordem de Cristo, sucessores da Ordem dos Templários
Bibliografia
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