Ficha de Inventário

Festa de Nossa Senhora do Monte

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2016/18
  • Categoria: Romarias
  • Datação: 15 de Agosto
  • Contexto Territorial: Monte, Funchal
  • Caracterização: Nossa Senhora do Monte é a padroeira do Funchal e dos madeirenses, sendo muitas vezes invocada em casos de “aflições públicas” como grandes doenças (peste), tempestades, secas, aluviões, náufragos entre outras. A anteceder a festa, de 5 a 13, às 20 horas, têm lugar as novenas preparatórias. A primeira é a denominada “Chave de Ouro”. Depois seguem-se as novenas da “Boa Esperança”, “Bom Coração”, “Boa União”, “Paz”, “Emigrantes”, “Carreiros”, “Boa Vontade” e por último a da “Boa Fé”. A pequena imagem de Nossa Senhora do Monte, datada do século XV, que se encontra numa espécie de trono, é retirada nestes dias, para que os fiéis possam beijá-la. As típicas barracas de comes e bebes estão instaladas no Largo da Fonte e no Largo das Babosas, convidando a uma paragem para comprarem carne, bolo do caco ou outros petiscos, ou ainda para beberem um copo. Além destas estão também as que vendem quinquilharias, ficando a comercializar até de madrugada. É convidada uma ou mais bandas para animar o arraial, frequentado por centenas de pessoas, madeirenses, emigrantes ou turistas. São muitos os que ainda fazem fila para beberem da água da nascente que corre no Largo da Fonte. Às 11 horas do dia 15 inicia-se a missa e em seguida a procissão, percorrendo os caminhos circundantes à igreja.
  • Origem/Historial: Nas sociedades agrárias sempre existiram cultos e praticaram-se ritos, associados às forças mágicas, que o Homem julgava controlarem a natureza e a existência humana. Estes rituais de purificação e de apelo à fertilidade estavam intimamente ligados às diferentes estações do ano, nomeadamente as cerimónias de expulsão do Inverno, as de celebração da chegada da Primavera ou as de comemoração do final do ciclo agrícola. Os meses de Verão – Junho a Setembro – época das colheitas, eram meses festivos por excelência. Tratava-se da “recompensa” final pelo árduo trabalho tido ao longo do ciclo agrícola anual sendo, portanto, uma época de plenitude, de alegria, de festa. Muitos destes rituais profanos foram absorvidos pelo Cristianismo, que os transformou em solenidades religiosas, embora sagrado e profano continuem a “conviver” no mesmo espaço, misturados numa amálgama de crenças e rituais. As romarias são celebrações religiosas de invocação divina ou em honra de um santo, patrono de uma localidade ou de um santuário. Distinguem-se das outras festas religiosas pelo caráter de “peregrinação”, do percurso efetuado pelo povo até o local do santuário, antigamente a pé, por caminhos íngremes e atalhos. No arquipélago da Madeira, tal como no resto do país, em todas as paróquias celebram-se estas festas religiosas, as quais são consagradas a Deus, ao Espírito Santo, a Nossa Senhora e aos santos e santas, representados por uma relíquia – fragmento ou objeto – ou por uma imagem. Estas festas têm usualmente a sua origem na crença do povo em lendas populares ou foram introduzidas pelos primeiros colonizadores, que trouxeram consigo os seus santos detentores de poderes milagrosos, tornando-os protetores de determinadas localidades. A sua História, no entanto, reporta-se a tempos muito remotos, a cultos ancestrais e a crenças anteriores ao cristianismo, que se mantiveram apesar das normas oficiais religiosas as terem adaptado e transformado. A construção dos primeiros templos religiosos teve lugar, muitas vezes, na proximidade de antigos santuários pagãos e algumas lendas estão associadas implícita ou explicitamente a antigas divindades. Parece existir efetivamente uma continuidade entre o dinamismo popular que se exprime nas romarias e as formas religiosas que precederam o cristianismo. A localização dos santuários junto dos antigos lugares de culto, as lendas dos santos – e o seu culto – associadas aos elementos naturais (rochedos, mar, fontes, árvores), a permanência de certos itinerários ou gestos rituais, a intensidade do sentimento da natureza que leva o romeiro a ver a sede do sagrado mais na globalidade de um sítio, cuja harmonia aprecia e celebra, do que nos limites estreitos do santuário, a tendência, historicamente atestada pela igreja, para celebrar “junto das árvores” e “no campo”, são elementos que nos obrigam a ler o comportamento dos romeiros em referência a gestos e sem dúvida a complexos rituais abolidos (SANCHIS, Arraial, 325). As romarias realizam-se usualmente aos fins-de-semana e constituem um período de descanso, uma pausa no trabalho quotidiano. O culto de Nossa Senhora do Monte, tem origem numa lenda, que refere a aparição de Nossa Senhora a uma pastorinha no Terreiro da Luta, cerca de 1 quilómetro acima da atual igreja de Nossa Senhora do Monte. O pai participou às autoridades, que mandaram colocá-la na capela da Encarnação, próxima da atual Igreja de Nossa Senhora do Monte, tendo este nome sido atribuído àquela venerada imagem. Desde então foi instituída toda uma devoção, alimentada por diversos milagres, estendendo-se o culto por toda a ilha, até atingir a dimensão atual.

Bibliografia

  • FERREIRA, César; Catálogo "Festas e Romarias da Madeira", Museu Etnográfico da Madeira, Ribeira Brava, Julho, 2006.
  • BARROS, Jorge e COSTA, Soledade Marinho, Festas e Tradições Portuguesas. Círculo de Leitores, Lisboa 2002.
  • BRAGA, Teófilo, O Povo português nos seus costumes, crenças e tradições, Vol. II, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986.
  • BRUCE-MITFORD, Miranda, O Livro Ilustrado dos Signos & Símbolos, Selecções do Reader’s Digest, Lisboa, 1996.
  • CAILLOIS, Roger; O Homem e o Sagrado, Perspectivas do Homem/Edições 70, Lisboa 1988.
  • ELÍADE, Mírcea; O Mito do Eterno Retorno, Edições 70, Lisboa.
  • ELÍADE, Mírcea; Tratado de História das Religiões, Edições Cosmos.
  • ESPÍRITO SANTO, Moisés, Origem Orientais da Religião Popular Portuguesa, Assírio e Alvim, Lisboa, 1988.
  • LOPES, Aurélio, Subversões rituais de um Natal Solsticial, In Jornal do Folclore, Dezembro 1998.
  • LOPES, Aurélio, A face do caos, Ritos de subversão na tradição portuguesa, Publicações do autor e de Garrido Artes Gráficas, Lisboa, 2000.
  • MARTINS, Oliveira; Sistema dos mitos religiosos, Guimarães Editores, Lisboa, 1986.
  • NOGUEIRA, Odete L., Plantas & Flores. Histórias e Símbolos, Notícias Editorial, Lisboa, 2004.
  • OLIVEIRA, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.
  • PEREIRA, Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, Volume II, Câmara Municipal do Funchal, 1989.
  • PEREIRA, Júlio; Sabores. Receitas Tradicionais Madeirenses
  • SANCHIS, Pierre, Arraial: Festa de um povo. As romarias portuguesas. Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983.
  • SILVA, Padre Fernando Augusto; MENESES Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, Volume II, Funchal, 1998.
  • VISCONDE DO PORTO CRUZ, Crendices e Superstições do Arquipélago da Madeira, Edição do Autor, Funchal, 1954.
  • ESPÍRITO SANTO, Moisés; A Religião Popular Portuguesa. A Regra do Jogo, Edições Lda.

Exposições

  • Exposição

    • Fórum Madeira
    • 28/7/2006 a 31/8/2006
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Museu Etográfico da Madeira
    • 29/7/2006 a 10/9/2006
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Casa Paroquial de Santana
    • 28/11/2006 a 10/12/2006
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cultural John dos Passos
    • 12/12/2006 a 12/1/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico da Ponta do Pargo
    • 20/1/2007 a 28/2/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico do Estreito de Câmara de Lobos
    • 9/4/2007 a 30/4/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico de Câmara de Lobos
    • 1/5/2007 a 13/5/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico de Machico
    • 9/10/2007 a 26/11/2007
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Centro Cívico da Ilha
    • 2/12/2012 a 9/12/2012
    • Exposição Física
  • Exposição

    • Aeroporto Internacional da Madeira
    • 20/8/2014 a 30/9/2014
    • Exposição Física

Multimédia

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  • Bonecas de massapão.jpeg

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