Caracterização: O Sr. Artur Andrade, residente na Fajã dos Vinháticos, no concelho de São Vicente, é cesteiro e produz variados tipos de cestos, nomeadamente os cestos vindimos utilizados para transportar as uvas até os lagares.
Possui uma plantação de vime e faz todo o tratamento da matéria-prima na unidade doméstica.
Quanto aos seus aspetos formais e funcionais, a obra de vimes divide-se em três categorias: a obra leve (cestos para flores e pequenos objetos), a obra média (cestos de vários formatos para uso doméstico e cestos utilizados na tarefas agrícolas, como os cestos vindimos) e mobiliário (cadeiras, mesas, etc.)
Na altura da poda dos vimes, as ferramentas necessárias a tal atividade são a podoa, o podão e a navalha. Na execução dos trabalhos em vime, são necessários o alicate, o podão, o canivete, o martelo, o rachador, o malho de ferro, a agulheta, o serrote de costa, o serrote universal e o de volta O cesteiro usualmente, trabalha sentado, sendo o artefacto colocado no chão. Para a confeção de um cesto vindimo com vime crú (com casca), são colocadas em cima de um banquinho de madeira, ou no chão, várias hastes de vimes, cruzadas umas sobre as outras, formando uma cruz. O artesão prende-as numa ponta, com o pé, e com um vime começa a entrelaça-los, dando forma ao fundo do cesto.
Terminado o fundo, bate com o malho para apertar o vime e com o auxílio da agulheta, dobra as pontas, virando-as para cima.
Encaixa um arco de vime à volta das hastes e corta os excessos de vime na base. Prende as hastes ao arco, com um vime fino, entrelaçando-o e coloca cerca de uma dúzia de vimes na mão.
Apara os caules e dá início ao entrelaçamento, entre as hastes verticais, a partir do fundo do cesto. A meio cesto, bate com o malho para apertar o vime e retira o arco, dando continuidade ao entrelaçamento. Terminadas as paredes do cesto, segura em dois molhos de hastes e inicia o rebordo, entrelaçando-os, entre as hastes verticais. Com o auxílio da agulheta, abre os espaços, onde estes serão entrelaçados. Findo o rebordo, apara as pontas das hastes que sobraram, com o auxílio do canivete, terminando a obra.
CADEIA OPERATÓRIA DA CONFEÇÃO DE UM CESTO VINDIMO com vime crú (com casca):
1.Em cima de um banquinho de madeira, ou no chão, são colocadas várias hastes de vimes, cruzadas umas sobre as outras, formando uma cruz. O artesão prende-as numa ponta, com o pé, e com um vime começa a entrelaça-los, dando forma ao fundo do cesto.
2.Terminado o fundo, bate com o malho para apertar o vime e com o auxílio da agulheta, dobra as pontas, virando-as para cima.
3.Encaixa um arco de vime à volta das hastes e corta os excessos de vime na base. Prende as hastes ao arco, com um vime fino, entrelaçando-o e coloca cerca de uma dúzia de vimes na mão.
4.Apara os caules e dá início ao entrelaçamento, entre as hastes verticais, a partir do fundo do cesto. A meio cesto, bate com o malho para apertar o vime e retira o arco, dando continuidade ao entrelaçamento.
5. Terminadas as paredes do cesto, segura em dois molhos de hastes e inicia o rebordo, entrelaçando-os, entre as hastes verticais. Com o auxílio da agulheta, abre os espaços, onde estes serão entrelaçados. Findo o rebordo, apara as pontas das hastes que sobraram, com o auxílio do canivete, terminando a obra.
Origem/Historial: O crescente ritmo de invenções técnicas e de descobertas científicas modificou os valores do trabalho. Passámos de uma sociedade que valorizava o trabalho braçal, para uma sociedade industrial, que privilegia o lazer e o conforto. A transmissão dos saberes tradicionais, de pais para filhos, é cada vez menor e o número de jovens nestes ofícios é cada vez mais reduzido. Uma certa desvalorização social afasta os jovens destes ofícios e conduz estas profissões à extinção.
A profissão tradicional de cesteiro insere-se na categoria de ofícios produtivos.
Os mesteres ou oficiais eram os profissionais que trabalhavam manualmente. Geralmente tinham baixo rendimento, devido às limitações da produção artesanal e raramente ascendiam à burguesia.
Para fazer parte de uma corporação ou ofício, era necessário ser-se admitido desde tenra idade como aprendiz, por um mestre. A sua ascensão requeria a superação de provas, nas quais o aspirante tinha de demonstrar a sua habilidade. De um modo geral, trabalhavam em oficinas, denominadas tendas, empregando cinco a seis pessoas, ou na unidade doméstica e ali vendiam os seus produtos. À medida que cresceram as vilas, tornando-se cidades, os artífices deixaram de serem vendedores ambulantes, pois existia um grande mercado local onde os produtos eram todos escoados. É na Idade Média que os ofícios adquirem uma maior importância. Organizarem-se em corporações e a agruparam-se em ruas, segundo as várias profissões e ali produziam e vendiam os seus artigos.
A importância e a fixação dos mesteres em determinadas áreas do Funchal, influenciaram deste modo a toponímia, existindo por exemplo as ruas dos Mercadores, do Sabão, dos Caixeiros (carpinteiros de caixas de açúcar), dos Ferreiros e dos Tanoeiros. Entre os ofícios mais comuns no nosso arquipélago, podem-se referir os pedreiros, oleiros, alfaiates, serralheiros, calceteiros, carpinteiros, marceneiros, tanoeiros, ourives, picheleiros, ferreiros, sapateiros, chapeleiros, os moleiros e os cesteiros.
Enquanto os homens dominavam aqueles ofícios, as mulheres ocupavam-se em actividades na unidade doméstica tais como a costura, o bordado, a tecelagem e a confecção de pão e doces.
O vime constitui uma matéria-prima priveligiada na produção cesteira madeirense em geral, embora possua uma tradição mais vincada na freguesia da Camacha. Ao natural ou previamente preparado, era utilizado na confeção dos mais variados cestos, nomeadamente as chamadas "cestas de almoço" utilizadas não só para transporte do almoço, mas atmbém a caminho das grandes festas e romarias com a tradicional refeição, a "tampa", recipiente no qual era servida a refeição na unidade doméstica, os "balaios das saloias", utilizados para transportar as oferendas nas festas do Espírito Santo, ou os cestos vindimos, utilizados no transporte das uvas para o lagar na época das vindimas, entre outros.
A morfologia dos cestos foi se alterando e evoluindo ao longo dos tempos, surgindo novas formas utilitárias e decorativas, adaptadas às novas necessidades e às exigências do mercado. Com o aparecimentos dos objetos em plástico e noutros materiais sintéticos, alguns destes cestos mais populares utilizados na unidade doméstica ou nas taregas agrícolas, acabaram por deixar de ser produzidos.
A palavra vime, do latim vimen, é um material de origem vegetal, utilizado desde tempos primitivos. É a haste mole, flexível, comprida, delgada e resistente do vimeiro e que constitui a matéria-prima para diversos usos, principalmente na manufactura de cestaria e mobiliário.
O vimeiro cultivado na Madeira é um cruzamento da espécie do género Salix alba L. (choupos) com o Salix fragilis L. (chorões). A cultura está espalhada por toda a ilha, principalmente nos terrenos húmidos, leitos das ribeiras, lameiros e próximos das levadas. Multiplica-se com facilidade por estaca, utilizando-se as hastes de calibre médio, que se seccionam em pedaços de 20 ou 30 cm.
Para o cultivo do vime: abrem-se furos com a profundidade das estacas e estas são enterradas, verticalmente, no solo, deixando um espaço entre elas. Para aconchegar a terra em toda a extensão da estaca, abre-se outro furo a poucos centímetros do primeiro. Ao longo do ano, o vimeiro recebe alguns tratamentos de limpeza e de protecção.
O vimeiro começa a produzir dois anos após ser plantado, sendo a primeira colheita mais reduzida. Com o decorrer do tempo, forma-se a “cabeça”, de onde saem as hastes e a produção aumenta, até atingir 2 a 5 kg., por planta. Dependendo do terreno, a duração da planta pode atingir os 12 anos e a sua produção é maior nos anos húmidos.
A poda do vimeiro é executada no período de descanso vegetativo da planta, o que corresponde aos meses de Janeiro a Março. São retiradas as pernadas, ou seja, as pequenas ramificações da planta, e o vime é cortado com o auxílio da podoa. Os vimes colhidos são seleccionados por calibre, juntando-se em molhos. Os vimes são submetidos a dois tipos de tratamento: cozidos e crus.
Tratamento do vime cozido: o caldeiro – recipiente de folha, de grandes dimensões, assente num vão – é aceso, deixando-se a água ferver. O caldeiro é “carregado”, ou seja, mergulham-se os vimes na água, durante 4 horas, os quais são abafadas com sacas, sobre as quais são colocadas tábuas e pedras ou “grampos” em ferro, para não deixar sair a fervura, evitando que estes sequem.
Depois de cozido, o vime é retirado e é malhado, com o auxílio de um maço de madeira ou um malho de de ferro, em cima de uma pedra, para facilitar o descasque.
Após esta operação, os vimes são novamente “armados”, cruzando-se os molhos uns sobre os outros.
Deita-se água fria por cima e procede-se ao descasque.
Este é normalmente efectuado por mulheres sentadas, lado a lado, enquanto algumas em pé, de vez em quando, vão deitando água fria, para evitar que estes sequem e vão recolhendo os vimes já descascados. Estes são novamente armados, colocados a secar ao sol, com varas, nos terrenos ou ao longo dos caminhos, durante cerca de 2 a 3 dias.
Depois de secos, são amarrados em grandes molhos, separados por classes. Os vimes maiores (com cerca de 3 a 4 metros), são amarrados em molhos de 20 a 30 kg. enquanto os mais pequenos, com cerca de 1 metro e meio, são amarrados em molhos de cerca de 15 kg.
Este tipo de vime fica com a cor acastanhada e só é utilizado em certo tipo de obras de vime. Devido à cozedura, a probalidade de ter caruncho é mínima.
Tratamento vime crú: apanham-se os vimes e espalham-se para secar, durante cerca de um mês e meio a dois, até ficar preto. Depois colocam-se num poço, permanecendo a curtir cerca de um mês ou mês e meio, até as hastes possuírem raízes e rebentos, altura em que os vimes podem serem descascados à mão. Depois são colocados a secar. Depois de secos, voltam novamente para o poço, para curtir, durante 24 horas, pois o vime cru para ser trabalhado, deve estar molhado ou pelo menos húmido, caso contrário, quebra-se. Este vime destina-se à obra branca.
Bibliografia
LEROI-GOURHAN, André; Evolução e Técnicas. O Homem e a Matéria, Volume I, Edições 70, Lisboa, 1984.
FERREIRA, Lídia Góes; "Profissões Tradicionais: A Obra de Vime", Catálogo da exposição inserida no Projeto trimestral "Acesso às Reservas", Museu Etnográfico da Madeira
PEREIRA, Jaime Azevedo; “Os vimes na ilha da Madeira” in Revista Atlântico nº 5 Primavera 1986
“Obra-de-vimes: A história e o futuro”, in Diário de Notícias Madeira, 20 Setembro 1992
Exposições
Profissões Tradicionais A Obra de vime (Projeto Acesso às Coleções em Reserva)
Átrio do Museu -
26/1/2009 a 27/5/2009
Exposição Física
"O Homem e o Artefacto"
Sala de exposições temporárias do Museu Etnográfico da Madeira