Ficha de Inventário

Construtor de brinquinhos

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2018/52
  • Categoria: Profissões Tradicionais
  • Contexto Territorial: Quinta Grande
  • Caracterização: O brinquinho ou “bailhinho”, designações populares utilizadas na Madeira, é um dos nossos instrumentos musicais tradicionais mais divulgado, descrevendo-se por isso a confeção deste artefacto. O brinquinho é um idiofone misto de concussão direta, composto por um conjunto de bonecos em pano (usualmente sete figuras masculinas e femininas) trajando indumentária tradicional, portadores de castanholas nas costas e fitilhos, dispostos na extremidade de uma cana de roca, em duas ou mais séries circulares, de diâmetro desigual e é encimado por uma destas figuras. É ornamentado, ainda, com tampas de garrafas (caricas), que também funcionam como castanholas. Este instrumento possui um arame (vareta central do instrumento), o qual passa no interior de uma cana e é acopulado a um cabo. O tocador segura no cabo e imprime movimentos verticais, que fazem tocar as castanholas. É utilizado usualmente para marcar compasso. Sendo o seu uso mais comum entre os grupos de folclore da Região, também aparece isolado pelas mãos do povo, nos arraiais tradicionais. Era costume, nos arraiais, o povo formar rodas para entretenimento, tocando, cantando e dançando – os chamados brincos - termo que alguns autores relacionam com a sua designação. Cadeia operatória da confeção do brinquinho Para a confeção do “Brinquinho” e começando pelo mais pequeno (para os restantes o processo é o mesmo, o que varia é o número e o tamanho dos bonecos), o artesão começa por fazer as estruturas dos bonecos. Trata-se de um segmento de madeira retangular, que é furado com uma broca para encaixar a cabeça, os braços e as pernas dos bonecos. A madeira mais usada é o pinho. O arame das pernas é passado e dobrado, rodando livremente, de modo a permitir o movimento dos bonecos. Os furos para os braços, são perpendiculares ao das pernas. O arame é passado e dobrado, ficando à frente uma pequena argola, a qual é dobrada para trás, de forma a impedir que os braços dos bonecos se movimentem em relação ao corpo, permitindo a regularidade dos movimentos. Com a ajuda de moldes, o traje é confecionado pelas mulheres, que os cortam e cosem à máquina. O traje varia consoante o pedido do cliente. Se for para um grupo folclórico, as cores são feitas de acordo com traje do grupo. Se for para comercializar, os homens são vestidos de branco e as mulheres com saias listadas, blusas brancas e faixa vermelha. Na cintura dos bonecos masculinos, é colocada uma faixa de lã vermelha. A cabeça é feita com pano cor-de-rosa cheia de algodão, o cabelo é lã de ovelha e a cara e os olhos são traçados com cor preta e a boca de vermelho. Nas cabeças das figuras masculinas são colocados os tradicionais barretes de orelhas, nas figuras femininas lenços ou carapuças. O calçado dos homens é feito com fita adesiva vermelha, imitando as tradicionais botas de vilão. Nos brinquinhos mais pequenos, a figura masculina é sempre colocada no topo, e as mãos são borlas, popularmente designadas por burlotes, feitas com linhas de lã de várias cores. Nos de maiores dimensões a figura masculina possui duas caricas nas mãos que, ao baterem uma na outra, produzem som. O passo seguinte é a confeção das bases, em forma de “estrelas”, utilizando o artesão uma placa de MDF ou aparite, com um centímetro de espessura. O número de bicos da “estrela” varia consoante o número de bonecos (no caso do brinquinho numero 1, são três bicos). Estas são furadas no centro, sendo a parte inferior - que é móvel - furada com um diâmetro de maior dimensão que o da base superior, que é fixa. À volta das estrelas são feitos rasgos, de forma a passar um arame, no qual serão fixados as mãos e os pés dos bonecos. Seguidamente é escolhida a cana que será colocada no centro, variando a altura e diâmetro, consoante o tamanho do brinquinho. Lateralmente, e de forma perpendicular, são feitos dois rasgos, um de cada lado da cana, de forma a permitir a movimentação da vareta metálica que irá passar no interior. Com a lixadeira retiram o vidrado da parte superior da cana e fixam-na à “estrela” com cola de madeira. No interior da cana é encaixada uma vareta espalmada, furada na parte superior, por onde passa um arame, que servirá para fixar a base móvel à vareta. Nos bicos, por baixo da base, são pregadas duas caricas (cápsulas de refrigerante), as quais são previamente espalmadas e furadas numa máquina, e colocadas de modo a que, ao baterem uma na outra, produzam o som desejado. A parte inferior da cana é ornamentada com fita adesiva vermelha e branca, em espiral. Começam por colocar a vermelha de baixo para cima e depois a branca em sentido contrário, prendendo-a bem, de modo a que não se descole, com os movimentos do tocador. Nas figuras femininas é passado uma linha de nylon, na qual irão encaixar as castanholas, feitas com madeira de castanho. Estas são confecionadas com um segmento de madeira comprido, de forma quadrangular, que é torneado no torno mecânico e lixado, para retirar as irregularidades. Na confeção das castanholas, a superfície é cortada a meio e as castanholas são separadas, com o auxílio de uma broca grossa, sendo o seu interior escavado. Com uma broca, são feitos dois orifícios na parte superior, por onde o fio de nylon irá passar para prendê-las aos bonecos. As castanholas são desbastadas na parte superior, com uma lixa, de forma a permitir que estas se entrechoquem quando tocadas. Os bonecos são fixos no arame, em volta da “estrela”, dobrando- as pontas das mãos e dos pés, com um alicate. No espaço entre os bonecos, são amarradas fitas de seda coloridas. Para finalizar é feito o cabo, cuja dimensão é adaptada ao tamanho do Brinquinho. O artesão utiliza um segmento de madeira de pinho quadrangular e comprido, o qual é colocado no torno mecânico, que possui um molde pré-definido. Enquanto a peça é torneada, o artífice passa uma lixa para desbastar as imperfeições e, com a máquina em movimento, utiliza um arame para desenhar círculos, que ficam marcados a negro. O cabo é retirado da máquina, é marcado o centro e, com o auxílio da broca, é feito o orifício onde será colocada a vareta central do brinquinho, estando pronto a ser tocado.
  • Origem/Historial: Embora a sua origem seja incerta, segundo alguns autores terá sido trazido para o arquipélago no século XIX, estando a sua origem provavelmente relacionada com um instrumento musical idêntico, designado de zuca-truca na Região do Minho e de charola ou cana de bonecos na Região do Douro. O zuca-truca ou cana dos bonecros ou monecros ou, ainda bonecos da festada ou macacos, é utilizado, atualmente, nas “rusgas” da zona de Guimarães e em Vila Praia de Âncora, onde é conhecido por brinquinho de âncora. É constituído por uma cana de bambu, com cerca de 1.20 m de alto, servindo de tubo e possui um boneco no topo e dois bonecos, paralelos à cana, vestidos com trajes regionais. Um arame no interior da cana provoca, com o movimento da mão do executante, o bater de castanholas pendentes das costas do boneco masculino. António Rodrigues vinca que a referência mais antiga ao termo 'bonecos', empregue pelo povo madeirense, remonta ao século XIX e chegou aos nossos dias por via oral e diz ainda que esses testemunhos descrevem 'bonecos' de madeira. Quanto à referência iconográfica mais antiga na Madeira do brinquinho data de 1923, através da pintura 'A Romaria' de Henrique Franco. A tela ostenta, em primeiro plano, um brinquinho. Na pintura, a configuração morfológica deste instrumento de percussão é de apenas três bonecos que com o tempo foi assumindo outras características e hoje o brinquinho pode ter até 12 bonecos. "A configuração morfológica das castanholas (…) evolui, transforma-se e dá origem aquilo que denominamos de brinquinho", considera o investigador. "Porque já se organiza de forma circular, à volta de um eixo - uma cana - e, na minha opinião, fica com a configuração de um brinco, ou seja, do despique, o grupo de romeiros a despicar".

Bibliografia

  • Catálogo da 1ª Mostra de Instrumentos Musicais Populares, Recolha, restauro, construção; Direção Regional dos Assuntos Culturais, Câmara Municipal do Funchal, 1982
  • CAMACHO, Rui, Torres, Jorge; Catálogo "Instrumentos musicais da tradição popular madeirense", Centro de Documentação Musical Xarabanda, 2006
  • OLIVEIRA, Ernesto Veiga Instrumentos Musicais Populares Portugueses, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982
  • OLIVEIRA, Ernesto Veiga Pequeno Guia para a Recolha de Instrumentos Musicais Populares, 1975
  • Sousa, Artur Freitas Brinquinho, Retrato da Cultura Popular, Notícia PT, 17 Fevereiro 2012

Exposições

  • Construtor de brinquinhos

    • Museu Etnográfico da Madeira
    • 28/7/2017 a 8/12/2017
    • Exposição Física

Multimédia

  • O brinquinho.JPG

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  • Fura a madeira.JPG

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  • Passa os arames nos furos da madeira.JPG

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  • corte e costura do traje .JPG

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  • Colocação das cabeças e botas.JPG

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  • Confeção das castanholas.JPG

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  • Confeção do cabo.JPG

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  • Fixação dos bonecos nas bases (estrelas).JPG

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  • Preparação e colocação das caricas.JPG

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  • Preparação e colocação das castanholas.JPG

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