Ficha de Inventário

Rituais de purificação: o serrar da velha

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2018/54
  • Categoria: Rituais coletivos
  • Datação: Na quarta-feira, da terceira semana da Quaresma (que marca o seu meio).
  • Contexto Territorial: Primeira Lombada
  • Caracterização: A “Serrada da Velha” celebra-se em Portugal, um pouco por todo o país, e também em outros países, como Itália, França ou Espanha. E nas diferentes regiões do nosso país, embora se utilizem diferentes denominações, todas elas se socorrem do vocábulo “SERRAR”: “Serrar da Velha”, “Serração da Velha”, “Serrar’à Velha” e “Serrota da Velha” são algumas dessas designações, utilizadas de Norte a Sul do país e nos arquipélagos, existindo apenas algumas exceções, nomeadamente a designação “testamento” ou “Deixas da velha”. Em Lisboa nos finais do século XVIII, de forma mais elaborada, era referida como “funeral da Mari’ Quaresma”, traduzindo de imediato a sua função. Portanto, em tempo de piedade quaresmal surge este ritual irreverente que fazia dos idosos as vítimas privilegiadas de impertinências várias. As personagens de “velhos” e “velhas” surgem, no fundo, como arquétipos do ano que passa ou do Inverno que termina e a sua morte simbólica representava a morte do tempo e da natureza, dando lugar a um novo ciclo, a um novo ano agrário. Com o domínio do Cristianismo estes rituais transitaram gradualmente destas datas, que marcavam os fins dos tempos cósmicos e vegetativos, para outras datas, que marcam os fins de períodos temporais, que o calendário litúrgico criou e configurou. E algumas vezes estes ritos correspondem não necessariamente ao fim do período considerado, mas ao ultrapassar de um dado momento do mesmo (a primeira metade por exemplo), quando a dimensão desse período e a sua severidade, surja aos olhos do povo como interminável. Ora, é isto, precisamente, o que se passa com a “serração da velha”, em que para assinalar essa data, se “serra” ao meio a velha e esquelética Quaresma, símbolo canónico do jejum e da fome, que se interliga em simbiose com a representação invernal. O escuro e faminto inverno, tempo de fome e frio, personaliza-se assim na Quaresma, que pelo seu caráter de abstinência, torna ainda mais austero um tempo de austeridade já marcado. Serrar ao meio a velha configura, pois, a celebração da ultrapassagem da metade desse difícil período, englobando, de forma implícita, as críticas à razão de ser de tais restrições, ou seja, uma crítica às imposições da Igreja. É por isso que este ritual é realizado na quarta-feira, da terceira semana da Quaresma. Apesar de algumas variações, pelo país inteiro, este ritual possui pontos em comum em todas as localidades: 1. Uma maior ou menor ostentação teatral satírica, e que inclui quase sempre um cortejo, com a participação de diferentes personagens consoante as regiões, como o “carrasco”, o “velho” e/ou a “velha”, o “tabelião” e um grupo de rapazes. Atualmente, aqui na Ponta Delgada já não é um grupo de rapazes mas sim a multidão, que ostentando chocalhos, búzios, buzinas ou outros instrumentos que produzam muito ruído, perseguem e ridicularizam as figuras do “velho” e/ou “velha”. 2. Um “testamento” criticando a austeridade quaresmal e estendendo essa crítica às personagens visadas, as velhas, e, ainda, sátiras e críticas a personagens locais e à comunidade em geral; 3. Representação da velha por uma pessoa, uma velha, um homem travestido, ou um boneco de palha (sendo que antigamente eram as próprias idosas dos sítios que eram perseguidas pelos rapazes); (NOTA ENGRAÇADA: Antigamente, por todo o país, os grupos der rapazes perturbavam de tal forma os idosos nas suas residências ao ponto de os idosos para se protegerem lançarem água a ferver ou os penicos, muitas vezes ainda cheios, de modo a escorraçá-los.). 4. E, finalmente, a “serração” ritual da “velha”. Portanto, apesar de algumas variantes locais, há um padrão, digamos um modelo homogéneo neste ritual, que é a ridicularização dos velhos, a utilização de barulheiras com lamentos e a serração, que fornecem o caráter fúnebre, e por outro lado os ditos e alusões satíricas, aos quais correspondem a crítica social. Atualmente este ritual apenas se mantém na Ponta Delgada. No entanto, em tempos idos até no Funchal se podia assistir à “Serração da Velha”. Isabella de França, em 1854, observou este ritual, quando visitou a Madeira e descreve-o no seu Diário de Viagem, da seguinte forma: (...) Estando nós tranquilamente em casa, à noite, ouvimos grande burburinho na rua, o qual se tornou ensurdecedor quando nos dirigimos para a janela. Vimos um bando de rapazes e garotos com archotes, escadas, tábuas e cordas. Gritavam, guinchavam, sopravam cornetas e faziam todo o género de barulho. Soube então que se tratava de um costume anual chamado Serração da Velha. Mais tarde contaram-me que levavam uma “matrafona”, que penduraram na ponte e depois atiraram-na à ribeira. A velha representa a Quaresma e serrando-a a meio, simboliza a chega à metade dos quarenta dias que faltam para a Páscoa.” Antigamente, na Primeira Lombada, Ponta Delgada, única freguesia onde este ritual persiste, os impulsionadores locais do “Serrar da Velha”, começavam pela manhã da Quarta-feira da terceira semana da Quaresma, tocando o búzio e apregoando “olha que é hoje, olha que é hoje”. Desta maneira, anunciavam o ritual e incentivavam a participação da população masculina. Havia uma pessoa, designada por o “cabeça”, que dava ordens para começar e acabar. Era também ele que mandava rezar um Pai-nosso e uma Ave-maria pelas almas dos que já morreram e como forma de agradecimento por estarem vivos. Os homens da Terceira Lombada, juntamente com os da Primeira, vinham em cortejo até à vila. À frente desfilava um homem transvertido de velho e outro de velha. (NOTA: Antigamente não usavam máscaras, punham à cabeça uma saca de semilhas ou enfiavam uma meia na cabeça). Estas figuras eram seguidas de muita gente aos gritos e apupos, munidos com luzes a petróleo e instrumentos, tais como tampas das panelas, búzios, chocalhos, correntes, folhas de zinco, latas, etc., fazendo um barulho infernal. Durante o percurso entoavam frases como “ai a minha avó” ou “ai a velha” e ainda “vão-te serrar”. De vez em quando agarravam numa traçadeira (uma serra vertical) e simulavam o ato de serrar a velha, ato esse intercalado com quadras populares. O ensurdecedor ruído era a forma como os nossos antepassados acreditavam que expulsavam os demónios do Inverno, espíritos nocivos da esterilidade, constituindo os velhos os, digamos, “bodes expiatórios”, pois simbolizavam o Inverno e o mau funcionamento do mundo. E andavam, também, pelas casas das idosas, apontando defeitos, reais ou imaginários, proferindo a frase: “olha a velha, olha a velha, vou-te serrar”. (NOTA: Daí que o termo “serrar em alguém” passou a significar ridicularizar ou como o povo diz gozar alguém). Hoje em dia, por uma questão de respeito pelos idosos, e para impedir situações desagradáveis devido aos excessos praticados por alguns, já não se realiza o ritual da mesma forma. Ao cair da noite, as pessoas concentram-se no sítio do Lombo, zona mais elevada do sítio, a “velha” e a comitiva, gritando e fazendo barulho para anunciar que vão iniciar o “Serrar da Velha”. Em seguida percorrem, de carro, o caminho principal até ao centro da vila e aí saem do carro e desfilam a pé. À frente vai a “velha”, seguida da multidão aos gritos e apupos, munidos com vários instrumentos, tais como um tronco, no qual se encontram suspensos ferros, martelados por uma ou mais pessoas, buzinas, búzios, chocalhos, latas, etc., produzindo um ruído infernal. Pelo caminho, a velha finge que desmaia, de vez em quando, sendo logo socorrida pelos companheiros, para lhe dar ânimo, levantando-se a velha de novo e retomando o percurso. No final regressam à Primeira Lombada, onde realiza-se um convívio, com uma refeição comunitária, na qual é servida carne, batata-doce, semilhas, pão, vinho e refrescos, oferecidos pela população local. Este ritual era feito, antigamente, somente por homens e rapazes com mais de 20 anos, constituindo também uma espécie de ritual de iniciação, mas atualmente é alargado a toda a população. NOTA CURIOSA: Naquele dia, muitos desses rapazes podiam fumar publicamente, assim como na da(ta do seu aniversário e no Natal).
  • Origem/Historial: A temporalidade solsticial e vegetativa concentrava-se ancestralmente naquilo a que hoje chamamos o ciclo natalício, que era o período que marcava, e ainda marca, a entrada do Inverno. Daí ser natural a localização nesta época de muitas práticas subversivas. Mas foi, precisamente aí, que o Cristianismo localizou, por questões de uma estratégia de culto, o nascimento da sua divindade principal: Jesus Cristo. Tal situação fez com que se tenha colocado em confronto, a piedade coerciva do Natal Cristão, com a ancestral e caótica subversão fertilizante da morte e nascimento do sol e da natureza, o que levou à extinção de muitas práticas pré-cristãs, que a Igreja considerava como indecentes e imorais. O período de abstinência e austeridade, preparatória da Páscoa, a chamada Quaresma, foi também colocado, pela calendarização cristã, próximo do Natal, tendo sido proibidas várias práticas, quer no que dizia respeito à ingestão de comida e bebida, quer relativamente às diversões e posturas públicas. No entanto, entre os Reis e a Quaresma, por omissão, digamos, foi sendo tolerada a subversão festiva que as populações entendiam, secularmente, como ligada a esta época do ano. Deste modo, desenvolveram-se práticas maledicentes e nesse período, especialmente nos últimos dias antes da Quaresma, concentraram-se as atitudes festivas e os excessos que a Igreja iria proibir: 1. Começava-se por comemorar, com grande sarcasmo, a entrada da Quaresma, transformada depois no “Intrudo” ou “Entrudo” popular. Era nessa altura que se praticava o ritual da “Queima dos Compadres e Comadres”, ritual que, embora alterado, ainda permanece no nosso arquipélago no concelho de Santana. Para além desse ritual, praticavam-se roubos e desacatos, organizavam-se mascaradas, comezainas e bailes foliões, denominados popularmente por “trapalhões”, ou seja, subversões várias, que foram transformadas naquilo que hoje se designa, por Carnaval, embora festejado de diferente forma e tendo perdido a sua função inicial. 2. Depois, no final, celebrava-se o encerramento deste período de forma grotesca e cerimonial “enterrando-se o entrudo”. Atualmente ainda persiste, aliás a designação “enterro”, embora tenha sido alterada para “enterro do osso”, mas que corresponde efetivamente a esse período. 3. A própria Quaresma não escapou à folia que dominava este período. A insatisfação pelas proibições impostas pela Igreja neste período levou a rituais de comemoração da ultrapassagem da primeira metade da mesma, traduzidos entre nós na bizarra “serração da velha”. 4. E, finalmente, atingido o seu termo, ou seja no fim da Quaresma e já inserido na comemoração festiva da Páscoa, praticavam-se ainda outros rituais que conjugavam, numa espécie de simbiose, a alegria cristã da ressurreição, com a alegria popular pelo fim da abstinência, nomeadamente a designada “Morte ou enterro do Judas”, que praticou-se no nosso arquipélago, que simbolizava por um lado o castigo por ter atraiçoado Jesus, mas constituía, simultaneamente, o bode expiatório da abstinência quaresmal. Na origem de todos estes rituais estão, pois, sem dúvida alguma, ancestrais rituais profanos, que a igreja tentou absorver, mas que se mantiveram ativos, embora com alterações. E isto porque, a partir de Março, os povos pagãos celebravam a chegada da Primavera e o renascimento da Natureza, dando-se início aos trabalhos agrícolas e este começo de um “novo tempo”, era festejado com mortes simbólicas, através de figurações em tribunais, execuções e enterros, possuindo estas mortes dois sentidos: simbolizavam a luta entre o Inverno e a Primavera e constituíam também rituais de purificação anual, como preparação favorável para as sementeiras. Os “cortejos fúnebres”, os “testamentos” e as “execuções públicas”, presentes neste tipo de rituais, são também aproveitadas para o desencadear de críticas locais, por um lado irreverentes e incómodas, mas por outro lado necessárias à coesão comunitária. Ou seja, com a expulsão do “males e pecados” de toda a comunidade, traduzida nas críticas sociais concretizadas simbolicamente em tribunais e testamentos, fazia-se, simultaneamente, a expulsão do “ano velho” ou chamada “morte do velho”, costume herdados desses ancestrais rituais pagãos de purificação, mas possuíam também a função de restabelecer a ordem e a coesão social. Muitos destes rituais deixam, sem dúvida, perceber ritos fúnebres anteriores, que eventualmente diluíram-se através dos tempos. A própria utilização de chocalhos e outros objetos para fazer ruído, remetem-nos para uma atitude de exorcização, que é própria dos tempos da morte e do renascimento. No arquipélago da Madeira, no âmbito destes ritos de purificação, existiam portanto três festejos: os “Compadres” que ainda se festeja no concelho de Santana, a “Serrada da Velha”, na freguesia da Ponta Delgada, concelho de S. Vicente, e o “Enterro do Judas” que, entretanto, já se extinguiu.

Bibliografia

  • CAILLOIS, Roger; O Homem e o Sagrado, Perspectivas do Homem/Edições 70, Lisboa 1988.
  • OLIVEIRA, Ernesto Veiga, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.
  • FERREIRA, Hélder e PERDIGÃO, Teresa; Máscaras em Portugal, Medialivros, S.A., Lisboa, 2003.
  • GONÇALVES, Luisa, Na Ponta Delgada “Serrada da Velha”: uma tradição que se perde no tempo, in Revista Xarabanda N.º 9. Primeiro Semestre Funchal, 1996.

Multimédia

  • 3- O cortejo fúnebre e ruidoso dá a volta à freguesia da Ponta Delgada.JPG

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  • 1- Uma manifestação ruídoso.JPG

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  • 2- O búzio auncia a serrada da velha, para a população se juntar.JPG

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  • 5- Campainhas, panelas velhas, latas de tinta, tudo serve para fazer barulho.JPG

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  • 6- Candeeiros a petróleo e outros improvisados, servem para iluminar o cortejo.JPG

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  • 7- Candeeiros a petróleo para iluminar o cortejo.JPG

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  • 8- O cortejo com o velho e a velha à frente, e a população atrás a fazer barulho dá a volta à freguesia da Ponta Delgada.JPG

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  • 9- A população reune-se à volta do juiz que lê o testamento da velha.JPG

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  • 10- Enquanto ouvem a leitura do testamento as pessoas fazem barulho e lançam injurias à velha.JPG

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  • 11- A velha que desmaia enquanto ouve a testamento é prontamente assistida pela enfermeira.JPG

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  • 12- O beijo da despedida.JPG

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  • 13- A confirmação do óbito.JPG

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  • 14-As pessoas exaltam de alegria a morte da velha.JPG

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  • 15- As pessoas organizam um convivio comes e bebes.JPG

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