Ficha de Inventário

Manufatura de um carro de cesto

  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Nº de Inventário: MEM2019/68
  • Categoria: Ofícios tradicionais
  • Contexto Territorial: Ilha da Madeira
  • Caracterização: Antigamente os carros de cesto eram construídos pelos mestres de obra de vime, na freguesia da Camacha, grande centro deste tipo de artesanato, ou esses artífices deslocavam-se ao Monte, para os construir, com exceção do assento, inicialmente em palha de trigo e forrado com tecido, que era confecionado nas oficinas do Monte. Atualmente, estes veículos são confecionados por uma artífice, o "carreiro" José Ricardo Vieira, que mantém viva a tradição, utilizando as técnicas tradicionais de carpintaria, cestaria em vime e estofamento, sendo todo o processo manual. O ofício é transmitido no seio familiar, tendo sido o seu pai José Vieira, já reformado, que transmitiu o "saber-fazer". Segundo o artesão, o carro de cesto tem, em em média, três anos de vida. Ao fim desse tempo, torna-se mais compensatório construir um novo. O carro confecionado neste levantamento de campo, foi construído durante três dias e na sua conceção foram utilizados trezentos vimes. O artífice mergulha os vimes num poço com água, durante cerca de três horas, retira-os e coloca-os a secar, durante cerca de uma hora. A construção do carro começa pela base, também designada por fundo, compartimento situado sob o assento, onde os carreiros guardam os seus objetos pessoais. É composta por duas ripas de eucaliptos e três do mesmo material, colocadas perpendicularmente. Na extremidade (a zona onde o passageiro coloca os pés) é pregada uma tábua de pinho. Em seguida são pregados, nas ripas da base, vinte e sete vimes grossos e cruzados nas pontas, em grupos de três. O artesão entrelaça os vimes, um a um, entre os vinte e sete vimes da base, com um espaçamento de quinze centímetros. Cruza os vimes mais grossos, com o troço de fora, os quais serão depois curvados, para construir as paredes laterais do carro. À medida que os vai entrelaçando, vai apertando com o martelo. Concluída a base, são feitos oito furos nos dois barrotes de madeira da base, quatro de cada lado, nos quais são encaixados oito ferros arredondados, os pilares, que irão suportar a estrutura do carro. Os vimes grossos da base são curvados e colocados na posição vertical, apoiados numa ripa de madeira, começando a caixa a ganhar forma. Os vimes são cortados em cunha e o artífice vai entrelaçando-os um a um, na base, no intervalo das hastes que foram dobradas, cruzando-os, por dentro e por fora dessas hastes. Os vimes da parte inferior das paredes laterais, são mais grossos, proporcionando ao carro mais consistência e um melhor aspeto. Quando as paredes atingem os vinte e seis centímetros de altura, o artífice curva-as, confecionando uma trança, com vimes mais grossos, reforçando esta zona, na qual irá encaixar o assento. O artífice coloca as tábuas do assento nos ferros, nos quais foram fixados os barrotes laterais da base. Para dar continuidade ao encosto, prossegue o entrelaçamento, cruzando os vimes com as hastes que vêm desde a base. De forma a disfarçar o local preparado para colocar o assento, entrelaça os vimes mais grossos, em trança, até o entrelaçado ficar nivelado. Depois das costas concluídas, o passo seguinte é cortar as hastes de forma aguçada, e marcar, numa ripa de madeira, o local onde serão feitos os furos. A ripa de madeira é furada e encaixada nas hastes aguçadas. Os bicos das hastes são aparadas e os buracos calafetados com cunhas de vime. O artífice segue o mesmo procedimento para a tábua do afinca pés, o suporte de apoio aos pés, e a tábua do afinca braços, de apoio aos braços. É colocada uma ripa de madeira em volta de toda estrutura, para que o acabamento fique uniforme. Na parte trás, a estrutura do suporte de apoio às costas, designado de vista, é reforçada com uma ripa grossa, que encaixa nos ferros, fixos na base. O artífice passa uma lixa na madeira, para dar acabamento à peça. O carro é lavado, com água de pressão, para retirar todas as impurezas dos vimes e fica a secar. Após a secagem, o artífice dá início ao estofamento do assento, pregando uma placa de couro na base, o qual é forrada com plástico transparente. Depois de colocadas as esponjas, com cerca de dez centímetros de espessura, na base, nas laterais e no encosto, o artesão forra-as com um tecido branco, preso com grampos e depois com o tecido, com motivos regionais ou florais. O estofamento é fixado à estrutura de carro, com uma agulha improvisada pelo artesão, um arame comprido e pontiagudo, com um orifício, no qual é introduzido um fio de nylon grosso, passando o artesão a agulha com o fio, por entre os vimes e o tecido. Para o remate do estofamento, coloca uma fita à volta deste. A sua cor varia consoante o tecido. De forma a reforçar a estrutura do carro, são pregadas chapas de ferro nas extremidades. Nas extremidades dos dois barrotes da base são pregadas os malhares, duas ripas de eucalipto, com cerca de três centímetros de espessura, arredondadas na parte da frente, as quais, untadas com sebo, permitem ao carro deslizar com maior facilidade. Nas extremidades dos malhares, são feitos dois orifícios, os focinhos, nos quais se introduzem as cordas ou correias, que servirão para conduzir e orientar o carro. Para concluir, o carro é marcado com um número, na sua base, número esse que serve para controle interno da Associação. A nomenclatura de um carro de cesto, comporta vários aspetos que muitas vezes passam despercebidos aos seus utilizadores e aos curiosos deste meio de transporte. Em traços gerais, é formado pelas seguintes partes: Afinca braços: suporte de apoio aos braços; Afinca pés: suporte de apoio aos pés; Assento: lugar onde os passageiros se sentam; Cordas ou correias: cordas que servem para orientar o carro no seu percurso; Costas: parte traseira do carro; Focinhos: orifícios situados nas extremidades dos malhares, onde se introduzem as cordas ou correias, que servirão para conduzir e orientar o carro; Fundo: compartimento situado sob o assento onde se guardam objetos pessoais dos carreiros; Malhares: barras em madeira, situadas nas extremidades da caixa as quais, untadas com sebo, permitem ao carro deslizar com maior facilidade; Vista: suporte de apoio às costas.
  • Origem/Historial: Ao longo da segunda metade do século XIX, a freguesia do Monte tornou-se a “Sintra regional”, ou seja, um refúgio romântico para as famílias abastadas do Funchal que, no Verão, preferiam um clima mais fresco. Datam dessa época as inúmeras “quintas de lazer”, casas rodeadas por jardins e parque, algumas atualmente visitáveis e que atraem muitos turistas. Tudo leva a crer que teria sido naquele local, por volta de 1850, que teriam aparecido os carros de cestos ou carros do Monte, visto não haver qualquer registo anterior a esta data. Supõe-se que surgiu da ideia de Russel Manness Gordon de adaptar a corsa, transporte de carga, a um veículo mais confortável e seguro, de transporte de passageiros, de forma a chegar rapidamente ao Funchal, visto que residia no Monte, na Quinta Gordon - atualmente Quinta Jardins do Imperador - e a sua profissão de comerciante de vinhos o obrigava a deslocações constantes ao centro da cidade. Outros teriam seguido a sua ideia, tendo inicialmente estes transportes as funções utilitária e de lazer, pois existiam para uso particular de transporte dos seus proprietários e para uso público dos turistas. A dimensão do carro variava consoante o número de pessoas que transportava, uma, duas ou três. Atualmente, apenas circulam para dois lugares. Devido ao impulso das escalas de cruzeiros nos finais do Séc. XIX, rapidamente este meio de transporte transformou-se numa atração turística da freguesia do Monte, para os que procuravam um passeio cheio de emoções, com uma vista esplêndida sobre a cidade do Funchal. Atualmente a viagem tem um percurso de 2 km, com a duração aproximada de 10 minutos, a uma velocidade que chega a atingir os 48 km à hora. Inicia-se no Caminho do Monte e termina no Livramento ou na Rua Bartolomeu Perestrelo. Antigamente, após a chegada ao Funchal, o carreiro transportava o carro às costas, até ao Monte, para iniciar nova viagem. Atualmente o transporte é feito com o auxílio de uma carrinha de caixa aberta. Isabel de França, que viveu na Ilha da Madeira de 16 de Agosto de 1853 a 4 de Junho 1954, no Jornal de Uma Visita à Madeira e a Portugal, descreveu este tipo de transporte: «Assemelha-se a um canapé mais curto, feito de vimes bem forrado e almofadado, o qual está fixo a um trenó e ligado a cordas; dois homens dão-lhe um empurrão e ele desce a calçada pelo seu próprio peso, num andamento que é natural, se acelera a cada instante, enquanto os ditos homens seguram as cordas e correm atrás a grande velocidade, fazendo o possível por evitar que o trenó se precipite. Ainda mais esquisito do que o carro de bois vai como uma bala disparada; a velocidade qua atinge é inconcebível e, para mim, um mistério como os carreiros o manobram tão depressa e tão afastados dele: nunca perdem o domínio e conseguem acelerar ou afrouxar à vontade. Admirável também a forma como o desviam quando o encontram no caminho o carro de bois, palanquim, ou seja, lá o que for.» Dos momentos mais marcantes da História dos carros de cesto, destacam-se a viagem do Presidente da República, Marechal Carmona, na sua visita à Madeira em 1938, o da arquiduquesa Isabel Stolberg e do príncipe Leopoldo d’Arenberg, que casaram nesta localidade em 1995 e a viagem do Príncipe Alberto Mónaco, na sua visita à Madeira, em 2017.

Bibliografia

  • SILVA, Padre Fernando Augusto; MENEZES, Carlos Azevedo de, "Elucidário Madeirense", Secretaria Regional de Turismo e Cultura, DRAC, Funchal, 1998.
  • SIMÕES, Álvaro Vieira; SUMARES, Jorge; SILVA, Iolanda, "Transportes na Madeira", DRAC, Funchal, 1983.
  • AGUIAR, Luísa Filipa; "Os Carros do Monte", in Revista Islenha, Nº 18, janeiro, 1996,
  • CARVALHO, Luís Manuel Correia; CAMACHO, Rui; "Os Carros de Cesto do Monte. Visão de um bem patrimonial único no mundo", in Revista Xarabanda, 2000-2001
  • TRIGO, Adriano A; Annibal; Roteiro e Guia do Funchal, Typografia Esperança, Funchal, 1910

Exposições

  • Viagens com mais de um Século de História

    • Museu Etnográfico da Madeira
    • 22/1/2019 a 24/4/2019
    • Exposição Física

Multimédia

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  • 1-Carros de cesto e carreiros do monte, junto aos restaurantes Bella Campina e Bello Monte.jpg

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  • 2- Escadaria de Acesso à Igreja de Nossa Senhora do Monte.jpg

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  • 3- Descida em carro de cesto no caminho do Monte, freguesia do Monte, Funchal.jpg

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  • 4- Descida em carro de cesto no Caminho do Monte.jpg

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  • 5- Descida em carro de cesto junto ao fontenário Carlos Murray.jpg

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  • 6- Vista da freguesia do Monte 1930.jpg

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  • 8- Largo da fonte Freguesia do Monte 1930.jpg

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  • 10- Alçado Este do edifício e jardim Quinta do Monte.jpg

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  • 11- Descida do Terreiro da Luta em Carro de Cesto 1932.jpg

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  • 12- Comboio da Companhia do Caminho de Ferro do Monte.jpg

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  • 13- Entrada do Monte Palace Hotel no Caminho do Monte.jpg

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  • 14- Descida em carro de cesto no Caminho do Monte.jpg

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  • 15- Os Reis D.Carlos e D. Amélia em carro de cesto à saida da Quinta da Choupana.jpg

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  • 16- Carro de cesto na descida da Rua de Santa Luzia, freguesia de Santa Luzia.jpg

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  • 1- Sede da Associação dos Carreiros, junto à escadaria que dá acesso à Igreja da Nossa Senhora do Monte.JPG

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  • 2- Os gatos de estimação dos Carreiros.JPG

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  • 3-Momentos de pausa dos carreiros1.JPG

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  • 4- Chapéus de palha e cordas dos carreiros.JPG

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  • 5-Aplicação do sebo nos “malhares” para que o carro deslize com facilidade.JPG

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  • 6- Carreiros a jogar às cartas no bar.JPG

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  • 8 - Largo da Fonte.JPG

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  • 10- Início da descida, Largo da Fonte.JPG

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  • 12- Descida Rua Bartolomeu Perestrelo.JPG

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  • 13- Quando o carro não desliza, é puxado pelos carreiros.JPG

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  • 14- Terminal do Livramento, Funchal.JPG

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  • 15- Terminal do Livramento, Funchal.JPG

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  • 16- Os carros são levados para junto do camião que os transportará de volta.JPG

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  • 17- Os carros são carregados no camião.JPG

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  • 18- Regresso dos Carreiros ao Monte.JPG

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  • 19- Carreiros no Largo da Fonte.JPG

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  • 19- Carreiros no Largo da Fonte.JPG

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  • 20- Os Carreiros descarregam os carros do camião.JPG

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  • 21- Transporte dos carros para junto da zona de descida.JPG

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  • 22- Carros estacionados no ponto de partida.JPG

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