Em 2017 o ICOM (
International Council of Museums) definiu o tema “
Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus” como tema para reflexão.
Neste âmbito, e nas comemorações da
Noite Europeia dos Museus (20 de maio de 2017), o
Museu Quinta das Cruzes apresenta ao público a mais recente aquisição patrimonial do Governo Regional da Madeira, através das Direção Regional
da Cultura, para integrar o espólio do futuro Museu do Romantismo e que se encontra temporariamente em exposição neste museu.
Desdobrável DSMPC
Karl Briullov (1799-1852)
Retrato Dr. António Alves da Silva (1822-1854)
Esta notável pintura constitui a primeira aquisição para o futuro Museu do Romantismo, Quinta do Monte, e apresenta-se como um importantíssimo gesto de defesa da memória patrimonial e artística da Região Autónoma da Madeira.
Foi adquirida na leiloeira Renascimento, em Lisboa, depois de ter sido apresentada no leilão 107, de 14/16 de dezembro de 2016.
Karl Briullov é unanimemente considerado o mais importante artista russo do século XIX, vindo de uma tradição Neoclássica e afirmando uma transição para o Romantismo russo, marcada, por um lado, pela pintura de Historia ou Historicista,
muito na tradição europeia da época, e pelo Retrato, de que era um exímio executante.
Karl Briullov nasce em São Petersburg onde inicia a sua formação artística, com André Ivanow, frequentando a Academia Real de Belas Artes, entre 1809 e 1821, tendo em 1823 continuado a sua formação em Roma até 1835, onde alcançará
grande notoriedade.
De regresso à sua terra natal continua carreira de grande sucesso, sobre duas dimensões: a grande pintura de temas históricos, como: “O último dia de Pompeia”, tese final como bolseiro em Roma, e, por exemplo, o “Assassinato de Inês de
Castro”, ou a pintura de retratos da sociedade próxima da corte.
O artista esteve na Madeira por razões de saúde, sofrendo de doença pulmonar, seguindo uma tradição de muitos elementos das classes abastadas russas junto da corte, num momento em que a ilha e o seu clima ameno tinham grande tradição
curativa. Parece que esteve na Madeira entre 1848 e 1850, onde pintou vários óleos e alguns desenhos, que se reúnem hoje, na sua maioria, na galeria Tretiakovskaia, o mais importante museu dedicado à arte do país, desde a época medieval
ao século XIX.
António Alves da Silva, o retratado, nascera em 1822 no Funchal, revelando desde cedo um interesse pelas letras e pela medicina. Frequentou o curso de medicina em Coimbra, interrompido pelas revoltas da Maria da Fonte e Patuleia, tendo
terminado a sua formação em Paris, em 1848, com uma tese sobre a febre tifóide. Em 1850 substitui o falecido Dr. Luís Henrique na Escola Médico-cirúrgica do Funchal, conforme carta passada pela Rainha D. Maria II, também agora, por
generosa doação privada nas nossas coleções.
O “Retrato do Dr. António Alves da Silva”, assinado e datado de 1850, é uma extraordinária pintura desenvolvida numa paleta discreta, onde se recorta uma figura a negro sobre um fundo cor de vinho, densificado por pinceladas eivadas de
luz que criam uma ilusão de afastamento da figura e respetivo volume sobre o fundo.
O rigor e relativa sobriedade da paleta revelam um extraordinário desenho e uma inexcedível mestria técnica que acentuam uma descrição anatómica e uma profundidade trágica no olhar que quase prenunciam a morte prematura do retratado
quatro anos depois.
A densidade psicológica e emocional põe-se num momento de charneira, em que se está em presença de um dos últimos ciclos de representação do retrato pintado e dos seus limites, em confronto com uma nova tecnologia nascente, que se
tornará, amplamente difundida, na arte maior da fotografia.
Se o desenho revela uma tradição da arte ocidental, que Briullov tanto admirava e desenvolvera em várias cidades europeias, na presença e admiração do Neoclassicismo, e da obra incontornável de Jacques Louis David. Por outro lado, o
efeito pictórico deixa transparecer uma grandeza romântica, distribuída pelo conflito emocional e a transparência da alma, numa paridade ou proximidade a Théodore Géricault ou Antoine-Jean Gros, ou mesmo na translucidez eloquente do
espírito visível em obras como o retrato de Louis Bertin de Jean-Auguste Dominique Ingres.
Esta pintura maior, agora aqui apresentada, vive de uma contenção minimalista de efeitos, pela forma, como faz no casaco, reverberar vários tons de negro, como na sóbria camisa e laço, derramando a luz a partir da fronte direita do
retratado.
A Madeira havia-se transformado, e sobretudo o Funchal, num sanatório imenso, frequentado pelas cortes europeias e dignatários. É desse encontro que nascerá a amizade improvável entre o jovem médico e o artista internacional, que em
agradecimento pelos tratamentos médicos fez a oferta de “Vista do Forte do Pico” e o próprio “Retrato do Dr. António Alves da Silva”, cuja proveniência é a mesma.