Em Portugal, a devoção a Santo Amaro vem desde tempos imemoriais, recorrendo o povo a este Santo para cura de enfermidades e fratura de ossos, motivo pelo qual se oferecem ex-votos em cera com a forma de braços e pernas.
Por todo o País existem capelas e ermidas dedicadas a este Santo e em sua honra fazem-se muitas festas e romarias. Na ilha da Madeira é festejado mais entusiasticamente nas capelas da freguesia do Paul do Mar, concelho da Calheta e em Santa Cruz.
O dia 15 de Janeiro, para além de ser designado como Dia de Santo Amaro, é também conhecido como o “dia de varrer os armários”, tradição secular que encerra no arquipélago da Madeira os festejos de Natal. Embora o Natal termine, usualmente, no dia 7 de Janeiro, após o Dia de Reis, o povo madeirense conserva a árvore e o presépio até este dia, quando são dados por findos os festejos de Natal.
É com a primeira Missa do Parto que começa o Natal madeirense e é com o “varrer dos armários” que este termina. Antigamente, toda a família reunia-se neste dia para assistir ao desarmar do presépio e festejar este Santo. Deitavam-se fora as searas, retiravam-se as frutas, o Menino era guardado no oratório e os pastorinhos nas caixas, até o ano seguinte. Na véspera, o povo andava de porta em porta, cantando ao som dos instrumentos tradicionais, quadras alusivas a este Santo. Munidos de uma vassoura, para “varrer os armários”, entravam, cantavam e serviam-se de vinho, licores, doces e fruta da lapinha, repetindo o ritual em todas as casas amigas.
No sítio da Achada, freguesia e concelho da Ribeira Brava, além da vassoura levavam uma figura antropomórfica, em maçapão, representando o Santo Amaro, a qual era colocada num cesto ou numa caixa, ornamentada com flores. Apesar de possuir muitos anos de tradição, este ritual parece ter sido pouco usual no arquipélago, só se conhecendo testemunhos da sua prática, neste concelho. O costume de representar um Santo numa figura de maçapão, ou partes do corpo humano, é comum em diferentes regiões da Europa.
Em Portugal, este ritual também aparece nas comemorações de diferentes festividades, nas quais o pão tem um papel preponderante.
Na Madeira, o “boneco de Santo Amaro”, como é popularmente designado, é confecionado pelas mulheres, na unidade doméstica. As mãos femininas modelam habilmente estas figuras, verdadeiras peças de arte popular, utilizando a massa de pão como matéria-prima.
Por tradição, nos dias que precediam o Natal a azáfama era grande em volta do forno. Ali eram cozidos o pão e os doces para a Festa. Este ritual prolongava-se durante toda a festividade. Além da figura do Santo Amaro amassavam, com o rolão que guardavam do Natal, as chamadas “maias”, pequenos pãezinhos, que eram consumidos naquele dia.
Natália Casquilho manteve a tradição, que permanecia na sua família há várias gerações e recordava-se que a sua avó fazia um boneco para cada neto. Numa recolha de campo que efetuámos em 2010, esta artífice, já falecida, confecionou esta figura antropomórfica para oferecer ao Museu Etnográfico da Madeira. Aqui ficam os nossos AGRADECIMENTOS pela confeção e doação do artefacto e pelo precioso testemunho oral, que tornou o nosso património imaterial mais rico.
Texto: Lídia Góes Ferreira
Informante: Natália Casquilho, Sítio da Achada, Ribeira Brava
Fotografias: Florêncio Pereira