A arte da pirotecnia - o fogo preso

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Foguetes armazenados na fábrica de fogo "Pirotecnica batalhense".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Foguetes armazenados num dos paióis da fábrica de fogo "Pirotecnica batalhense". Existiram muitas fábricas, espalhadas pelos diferentes concelhos da ilha, que fabricavam o fogo artesanalmente. No entanto, com o tempo, estas foram-se extinguindo, tendo sido esta fábrica a última a laborar na Região. Localizava-se no Sítio do Lombo do Doutor, no concelho da Calheta.
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Transporte do fogo para a serra de Água.
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Descrição: Transporte do fogo para a serra de Água. O chamado fogo preso já existia no século passado. Era muito apreciado em toda a ilha e presença obrigatória nos arraiais. Antigamente, era comum exibir-se o fogo num local público e ser organizado um cortejo, acompanhado pela banda, para transportá-lo até o local do arraial.
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Armazém do fogo
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: O "depósito de foguetes prontos a expedir" era o armazém onde guardavam o fogo preso depois de confecionado.
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Fogo preso - forno de endireitar as canas
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: O artífice endireitava as canas utilizadas, para a confeção dos foguetes, pela ação do calor, num forno de pedra providenciado para o efeito.
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Fogo preso - Canas colocadas nos tubos do forno.
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: As canas, apanhadas na Região, eram colocadas nos tubos transversais localizados na parte superior do forno construído em pedra e coberto de cimento, o qual era carregado com lenha, para a combustão. As canas tornavam-se maleáveis pela ação do calor, permitindo que o artífice as endireitasse.
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Fogo preso - Preparação da mistura para fazer a pólvora
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A preparação da mistura para fazer a "pólvora fina", utilizada para a "guia", tinha lugar na "Oficina de têmperas". Os seus componentes - o salitre, o carvão e o enxofre - eram cuidadosamente pesados numa antiga balança de pratos.
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Fogo preso - Pesagem do enxofre
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Pesa-se o enxofre numa balança de pratos para fazer a mistura para a "pólvora fina": .
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Fogo preso - Pesagem do carvão
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: O carvão é colocado numa balança de pratos para pesar com a finalidade de fazer a mistura da "pólvora fina":
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Fogo preso - Confeção dos canudos
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: O papel para fazer os "canudos" (que continham a mistura de pólvora) e para a "caixa" do foguete, era cortado à medida, na guilhotina, num dos paióis da fábrica. Usualmente utilizam papel já usado, reciclando-o. Para a confeção dos "canudos", o papel era cortado e era enrolado na fôrma de fazer o "canudo", para lhe dar forma. Estas fôrmas consistiam em pequenos sectores cilíndricos, com diferentes medidas, em madeira ou cana vieira, sendo esta última uma matéria-prima muito abundante na Região.
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Fogo preso - Confeção dos canudos
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Os "canudos" da pólvora após serem furados na máquina eram furados manualmente, utilizando o artífice um furador, confecionado por ele para esse efeito.
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Fogo preso - Máquina de furar canudos
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A máquina de furar os canudos que era accionada com um pedal, posteriormente passou a funcionar a electricidade. Esta máquina foi construída de forma artesanal, com peças confecionadas por ferreiros madeirenses. O canudo era enfiado numa extremidade pontiaguda em ferro e o sistema de correias era accionado através do pedal, furando o barro no seu interior.
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Fogo preso - Carregando os canudos com pólvora
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Os "canudos" maiores eram carregados com pólvora e a mistura era compactada com o auxílio de malhos de madeira. Este trabalho tinha lugar no chamado "toco de carregamento", um sector do tronco de uma árvore no qual era colocada uma folha de flandres em volta, formando um rebordo, para evitar que os "canudos" caíssem para o chão quando o artífice batia com o malho.
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Fogo preso - Preparação da guia
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A "guia" para o foguetes era preparada na fábrica. O fio era mergulhado numa banheira e coberto com pólvora e era pendurado em dois ferros, fixos na parede, para secar. Depois de seco, o artífice enrolava o fio em segmentos de cana vieira, cortados nas extremidades, como se vê na imagem.
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Fogo preso - Deitando o "pó de vela" no canudo
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A "vela" serve para incendiar os foguetes. O artífice utilizava uma "concha" em cana vieira para deitar o "pó de vela" dentro do "canudo" e com o auxílio de um instrumento pontiagudo e de um funil ía compactando o pó. A receita desta mistura era guardada sigilosamente. Eram os chamados "segredos do ofício".
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Fogo preso - Instrumento para compactar o pó de vela
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Instrumento utilizado pelos pirotécnicos para compactar o chamado "pó de vela", ou seja, a mistura utilizada para incendiar os foguetes. Este instrumento era feito pelos próprios artífices com um ferro e um sector de cana, no qual amarravam um bocado de tecido.
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Fogo preso - Furador
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Instrumento improvisado pelo próprio artesão, com uma lâmina enfiada num pequeno sector de cana, acopulado a um cabo.
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Fogo preso - Canudo
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: O pirotécnico pega na cana, previamente aparada numa das extremidades e coloca a "caixa do foguete" junto a essa extremidade da cana.
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Fogo preso - "Caixote de amarrar foguetes".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Para amarrar a "caixa" e o "canudo" ao foguete o artífice utilizava um mecanismo por ele improvisado: o "caixote de amarrar foguetes". Tratava-se de uma caixa de madeira, com o fundo virado para cima, a servir como mesa de apoio, na qual haviam sido pregados dois pregos e o fio era enrolado à volta dos pregos, formando uma espécie de meada. Utilizando o "caixote de amarrar foguetes", como era designado, o artífice puxava o fio que estava preso na caixa e amarrava-o à cana, terminando o foguete.
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Queima do fogo
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A queima do fogo tinha início na véspera da festa, ao meio-dia, com a "girândola de morteiros". Esta era montada num muro próximo da igreja, em local seguro. As chamadas "salvas" - paus compridos com pequenos orifícios - eram colocadas em cima do muro. Ao longo das "salvas" eram pregados vários paus pequenos, de forma a suspender a "girândola" junto ao muro. Cada "salva" tinha 21 foguetes e é este conjunto de "salvas" que forma a chamada "girândola".
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Fogo preso - montagem de uma"girândola".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Depois de montada a estrutura da "girândola", os pirotécnicos estendiam e amarravam a guia ao longo dos paus e colocavam os foguetes nos orifícios, com os "canudos" virados para a estrada. Os foguetes eram dispostos por ordem sequencial - do Nº1 ao Nº5 - e distinguiam-se pela cor do papel que os envolvia. Quando se tratava de uma "salva de mão" (como foi o caso naquele dia) utilizavam apenas foguetes estes 5 tipos de foguetes. Por fim a "girândola" era vistoriada, para o pitrotécnico certificar-se que todos os foguetes estavam bem colocados e com os canudos virados para a estrada, de modo a garantir a segurança.
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Fogo preso - Lançamento de um foguete da "salva de mão".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Às 12H00 eram lançados os foguetes da "salva de mão". Um homem segurava-os e ía passando-os ao "fogueteiro", que acendia a "guia" dos foguetes e fazia-os subir, como se vê na imagem.
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Fogo preso - Preparação da estrutura de uma figura antropomórfica, o "velho".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Descrição: À noite, a queima do "fogo preso" constituía um verdadeiro espetáculo, no qual os pirotécnicos, usando a sua imaginação, apresentavam diversas figuras. Atualmente apenas se mantém a utilização de figuras antropomórficas como o "velho" e a "velha" ou a "roda manhosa", sendo as "salvas de foguetes" e as "girândolas", o fogo preso mais comum. A preparação de toda as estruturas está a cargo do pirotécnico. Na imagem, o artífice prepara a estrutura do "velho".
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Fogo preso - a "velha"
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: As figuras do "velho" e da "velha" parecem estar relacionadas com antigos rituais associados aos ciclos agrícolas e à renovação da natureza praticados no nosso país. Antigamente era comum o povo fazer um boneco com feixes de trigo, que constituía a personificação da força ativa da vegetação, o qual era lançado à água, de forma a se garantir a chuva, ou era queimado e as cinzas espalhadas pelos campos de modo a se garantir a fertilidade. Estas figuras representavam também a morte do "ano velho" e expulsão do Inverno, com o consequente renascimento do "ano novo" e chegada do Verão.
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Fogo preso - a "roda manhosa".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A "roda manhosa" é um artefacto com a forma de uma roda, na qual estão dispostos vários foguetes.
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Fogo preso queima de uma "roda manhosa".
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Descrição: Os foguetes dispostos em toda a volta da chamada "roda manhosa", à medida que são acesos, fazem-na girar.
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O "fogueteiro"
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: Homem que lança os foguetes, popularmente conhecido como o "fogueteiro". Apesar da difusão dos diferentes artefactos de pirotecnia, como a "girândola", a "roda manhosa" ou o "velho" e a "velha", exibidos nas festas e romarias, o "fogueteiro" continua a ter um papel preponderante no arraial.
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Fogo preso - queima do "velho"
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  • Museu: Museu Etnográfico da Madeira
  • Categoria: Fotografia
  • Autor: Florêncio Pereira
  • Descrição: A "velha" e o "velho" são dois bonecos repletos de artefactos pirotécnicos, que giram à medida que são consumidos pelo fogo.

Apresentação

O chamado fogo preso já existia no século passado. Era muito apreciado em toda a ilha e presença obrigatória nos arraiais.

Antigamente, era comum exibir-se o fogo num local público e ser organizado um cortejo, acompanhado pela banda, para transportá-lo até o local do arraial.

Existiram muitas fábricas espalhadas pelos diferentes concelhos da ilha, que fabricavam o fogo artesanalmente. No entanto, com o tempo, estas foram-se extinguindo, tendo a última fábrica laborado no Sítio do Lombo do Doutor, no concelho da Calheta, na qual a equipa do museu efetuou esta recolha.

Já só trabalhava na fábrica um antigo funcionário da mesma, José António Martins, que exercia o ofício de pirotécnico há mais de vinte anos.
As várias fases da cadeia operatória do processo tradicional de fabrico dos foguetes tinham lugar nos diferentes paióis da fábrica e no seu exterior, resumindo-se às seguintes operações: endireitar as canas, que proporcionam o movimento ascendente e retilíneo na subida do foguete, confeção do fio e da "guia", preparação da pólvora (fina e granulada) na designada "oficina de têmperas", carregamento dos "canudos", confeção do "pó de vela", preparação dos "canudos" e da "caixa para a bomba" que eram amarrados à cana, finalizando-se o morteiro ou foguete.

Ocupando um lugar de destaque nos festejos, a queima do fogo tinha início na véspera da festa, ao meio-dia, com as "girândolas de morteiros".

À noite, a queima do "fogo preso" constituía um verdadeiro espetáculo de luz e de cor, no qual os pirotécnicos, usando a sua imaginação, apresentavam diversas figuras. Atualmente apenas se mantém a utilização de figuras antropomórficas como o "velho" e a "velha" ou a "roda manhosa", sendo as "salvas" de foguetes e as "girândolas", o fogo preso mais comum.

A "velha" e o "velho" são dois bonecos repletos de artefactos pirotécnicos, que giram à medida que são consumidos pelo fogo. Estas figuras parecem estar relacionadas com antigos rituais associados aos ciclos agrícolas e à renovação da natureza, praticados no nosso país.
Antigamente era comum o povo fazer um boneco, com feixes de trigo, que constituía a personificação da força ativa da vegetação, o qual era lançado à água, de forma a garantir chuvas, ou era queimado e as cinzas espalhadas pelos campos, de modo a garantir a fertilidade. Estas figuras representavam também a "morte do ano velho" e expulsão do Inverno, com o consequente renascimento do "ano novo" e chegada do Verão.

A "roda manhosa" é um artefacto com a forma de uma roda, na qual estão dispostos vários foguetes, que à medida que são lançados a fazem girar.

Apesar da difusão de todos estes artefactos de pirotecnia, exibidos nas festas e romarias, o "fogueteiro" continua a ter um papel preponderante no arraial.

Ficha Técnica

Texto: Lídia Góes Ferreira

Fotografia: Florêncio Pereira, Helder Ferreira, Rui Camacho